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PRINCIPAIS SEITAS DO POVO
JUDEU
Segundo o historiador Flávio Josefo eram três as seitas ou
partidos em que estava dividido o judaísmo nos últimos dois séculos
anteriores à era cristã: os fariseus, os saduceus e os essênios. Com
exceção da seita dos ebonitas, da qual nos ocuparemos extensamente
por sua importância e transcendência, não se pode afirmar com
segurança que hajam existido outras seitas antes
destas.
A única entre as
mais antigas manifestações de diferenciação que teve quase o caráter
de uma seita foi a dos Nezirim. Eles, todavia, distinguiam-se mais
pelo aspecto exterior de tipo ascético que pela própria crença. Suas
características eram essencialmente negativas: abster-se de toda
bebida alcoólica, não cortar o cabelo, fugir das impurezas rituais,
sobretudo de todo o contato com um cadáver. O nazireado podia ser de
dois tipos: um praticado raramente "ad vitam" e outro a tempo
determinado de livre escolha. Sansão e Samuel são os dois
representantes típicos destas classes. Parece que o costume do
nazireado continuou até a primeira geração cristã. As regras para o
nazireado encontram-se expressas em Números, VI. O nazir era
considerado como pessoa sagrada e entre os mais graves delitos
estava o de obrigá-lo a transgredir seu voto.
FARISEUS
Com este nome
indica-se a seita mais importante que houve no judaísmo do Segundo
Templo. Sua origem é incerta; parece que derivaram dos "hassidim",
dos "pios" do templo dos macabeus e que formaram sua congregação
paulatinamente, apoiando sua fé, sua crença e seu culto sobre a Lei
Escrita e a Lei Oral, que os saduceus não
aceitavam.
Não parece exato
que sua formação remonte ao ano 175 (A.C.), quando houve uma cisão
no Sanedrin. Suas doutrinas têm uma origem muito remota. Seus
adeptos pertenceram ao povo, ao contrário dos saduceus que
pertenciam à aristocracia. Por haverem saído dos fariseus todos os
grandes doutores dos últimos séculos antes de Cristo e primeiro
depois de Cristo, doutores que criaram a Mishná e, mais tarde, o
Talmud, a seita dos fariseus foi a mais importante no judaísmo.
Politicamente foram favoráveis a qualquer forma de governo que não
opusesse obstáculos ao seu culto. Suas doutrinas são praticamente as
que chegaram até nós através da Mishná e do
Talmud.
Os fariseus
foram os continuadores da seita dos "hassidim" ou piedosos, formada
pelos mais renomados doutores do Talmud: Johanan ben Zacai, Rabi
Aquiba, Simão ben Yohay, Gamaliel, Hilel, Ben Azay, inclusive Saulo
de Tarso que mais tarde trocou de nome para Paulo. Eram homens que
cumpriam zelosamente não só as leis escritas, mas também os costumes
conservados oralmente. Distinguiram-se por sua conduta moral e sua
moderação na vida.
Deixaram
dispersos aqui e ali, no Talmud, numerosas máximas e sentenças
dignas da meditação de todo homem culto, sincero e imparcial.
Citaremos algumas delas:
- "A verdade é o selo de
Deus"
- "Mais que toda ação
religiosa, Deus quer um coração puro"
- "Toda oração deve ser
precedida por um ato de caridade"
- "Aquele que comete uma
falta em segredo, nega a onipotência de Deus"
- "Se Deus reserva a
recompensa das boas ações para o mundo futuro é com o fim de que
os homens ajam neste mundo por convicção e não por interesse"
- "Sêde dos discípulos de
Arão, amai a paz e sacrificai tudo para mantê-la"
- "Não julgues teu próximo
até que te encontres no lugar dele"
- "Julgai todo mundo com
indulgência"
- "Não envergonhai o próximo
em público, porque isso poderia custar-lhe a vida e seríeis um
criminoso"
- "Mais vale estar entre os
perseguidos que entre os perseguidores"
- "Não te metas em nenhum
assunto do qual possa resultar condenado à morte ainda que
culpado"
- "Ditoso o homem que sai
deste mundo, limpo e sem pecado, como entrou"
Esta e outras
centenas de máximas que o farisaísmo nos legou falam eloqüentemente
da pureza de sua moral e de sua conduta e estabelecem
irrefutavelmente que o sentido depreciativo que se lhe atribui não é
outra coisa senão obra de quem estava interessado em
caluniá-lo.
Os principais
pontos da Doutrina dos Fariseus:
1- A
imortalidade da alma;
2- A
ressurreição corporal no fim dos tempos;
3- A existência
de anjos e espíritos;
4- A intervenção
de Deus no destino do homem, porém, sem privar a liberdade humana de
sua própria atividade.
As preocupações
principais dos Fariseus:
1- Pagar o
dízimo (dez por cento) dos frutos da terra e em não consumir nada
sem ter a certeza de que o dízimo havia sido
pago;
2- Manterem-se
"puros" – evitando contato com coisas mortas ou com pessoas afetadas
por certas enfermidades (Ex.: Lepra) e não mantendo relações com
pessoas de má conduta.
Os Fariseus (os
separados) constituíam a facção formada em sua grande maioria por
leigos devotos que, sob a direção dos letrados, se propunham levar
as práticas religiosas até às últimas minúcias da vida. No tempo de
Jesus eram uns 6 mil.
Buscavam
constantemente e com todas as suas forças a maneira de realizar o
ideal proposto pelos letrados: levar vida em tudo conforme a Lei,
com toda a complexidade que a interpretação dos letrados havia
conferido a esta durante séculos de trabalho. Cumpri-la
minuciosamente era o princípio e o fim de todos os seus
esforços.
Consideravam a
Lei ou Tora como instrução divina que ensina ao homem como ele tem
que viver; nesta suposição, só restava ao fiel estudar a Lei e pô-la
em prática em todos os setores de sua existência. O ideal que os
Fariseus se propunham realizar era conseguir que cada pormenor da
vida, pública ou privada, estivesse regulamento por disposição ou
estatuto divino, encontrado na Lei.
Para o Fariseu,
entregue à observância de uma Lei em que vê plasmada a vontade de
Deus, todo o mandamento é igualmente importante, pois cada um
expressa a mesma vontade de Deus, todo mandamento é igualmente
importante, pois cada em expressa a mesma vontade suprema. A
obsessão farisaica por alcançar a perfeição pressupunha a
responsabilidade individual, não só coletiva. Segundo eles, o homem
é bom ou mau simplesmente porque quer; a perfeição lhe é possível,
pois a observância total da Lei está a seu
alcance.
A conseqüência
desta doutrina foi assinalar a separação entre "justos" e
"pecadores": "justo" é o observante da Lei, porque se propôs a sê-lo
e cumpre; "pecador" é o que não a observa, segundo eles por decisão
própria. O mero estudo ou ignorância da Lei estabelecia uma linha
divisória, pois não se podia aspirar à perfeição sem o conhecimento
minucioso das normas, o que explica o desprezo que os Fariseus
sentiam pelo povo comum, que não tinha possibilidade de dedicar-se
ao estudo da Lei nem tempo para estar preso à observância de tantos
preceitos (Jo 7,49).
Pensavam que
tocar tais coisas ou relacionar-se com tais pessoas os punha mal com
Deus. Pecado era, para eles, não cumprir certas regras ou normas que
consideravam obrigatórias.
Não confiavam
nos comerciantes ordinários, que possivelmente não teriam pagado o
dízimo dos produtos, e organizavam cooperativas somente para eles.
Os comerciantes simples sentiam-se desprezados e, além disso, não
faziam negócios: isto criava a hostilidade
conseqüente.
Os Fariseus
gozavam de enorme ascendência sobre o povo. Embora por sua soberba
(Lc 16,15) fossem olhados com grande antipatia, o povo se deixava
impressionar pela aparência de virtude que eles procuravam aparentar
para manter vivo seu prestígio e sua influência.
Haviam levado o
povo a acreditar que, para estar bem com Deus, todos deviam fazer
como eles. Dada a impossibilidade prática para a maioria de
cumprimento tão minucioso, criavam por isso nos outros o sentimento
de culpa e de inferioridade que lhes permitia
domina-los.
Sua fidelidade
às regras os levava ao desprezo dos outros (Lc 18,9), que chamavam
"pecadores", ou seja, "descrentes" ou "sem religião" (Mt 9,10-11) e
(Lc 15,1-2) ou "malditos"(Jo 7,49).
A obsessão pela
observância da Lei os concentrava em si mesmos e em seu esforço por
observa-la. A consciência deste esforço criava o orgulho e a
auto-satisfação, que se traduziam na idéia de
mérito.
Não tratavam dos
assuntos políticos de ponto de vista secular, mas religioso.
Estritamente falando, não constituíam partidos religiosos: a
observância rigorosa da Lei. Contando que esta não fosse impedida,
aceitavam qualquer tipo de governo. Unicamente quando o poder
político interferia em seu modo de observar a Lei, é que se uniam
para formar frente comum contra ele.
Em contraposição
aos materialistas Saduceus (outro povo que falarei como outro
assunto), os Fariseus eram espiritualistas não comprometidos com o
homem nem com sua situação histórica.
O empreendimento
farisaico de perfeição termina em falência, cuja raiz é a
impossibilidade física da observância total. Não é estranho que a
hipocrisia espreitasse o Fariseu; bastava relaxar a tensão, afrouxar
a vigilância, para trair o ideal. Não faltavam entre os Fariseus
pessoas sinceras que advertissem contra o perigo da hipocrisia, mas
não tiveram grande repercussão.
A influência dos
Fariseus era tão grande, que o partido saduceu (sumos sacerdotes e
senadores), embora nominalmente possuísse o poder político e
religioso, não tomava medida alguma sem garantir para si o apoio dos
letrados Fariseus.
ESSENIOS
Uma das seitas
importantes no período do segundo Templo era a dos essênios. A
origem do nome não é muito segura. Há quem o ligue a raízes gregas,
aramaicas ou hebraicas, mas na realidade seu significado é obscuro.
Pelo que se sabe de suas características, o significado mais
apropriado seria o de "puros" ou "pios".
O essenismo
constituiu, nos séculos que vão desde o ano 150 (A.C) ao 70 (D.C.),
uma comunidade religiosa judaica que tinha algumas características
essenciais que afastavam-na do Templo de Jerusalém. As fontes que
temos encontram-se em Filon e Flávio Josefo. Parece que os essênios
viviam, de preferência, nas planícies e que uma de suas principais
sedes estava instalada no oásis de En-guedi sobre o Mar Morto.
Constituíam sobretudo uma ordem monástica; não se casavam e sua
comunidade perpetuava-se somente com a associação de novos membros.
Não procuravam lucros pessoais, todos trabalhavam pelos congregados,
com os quais viviam
em comum. Para
ingressar na confraria deviam passar por diversas fases de
noviciado; por sua sinceridade consideravam reprovável o juramento;
seguiam rigorosas regras de pureza tomando banhos freqüentíssimos e
usavam trajes brancos.
De sua teologia
e de suas doutrinas se conhece muito pouco. Não se sabe se tiveram
outros livros sagrados além do Pentateuco. Parece que a idéia que
eles tinham sobre a imortalidade limitava-se a considerar que a alma
veio do céu e a ele volta depois da morte do corpo, se o mereceu.
Presume-se que atribuíam muita importância à magia e à arte de
prever o futuro. Consideravam um dever mostrar-se fiéis à autoridade
nacional constituída, mas não à estrangeira. Com efeito, no ano de
66 uniram-se aos zelotes na revolta contra Roma.
Tinham algumas
particularidades que os afastavam do Templo de Jerusalém; a
abstenção do matrimônio, a abstenção dos sacrifícios ensanguentados
e o rito da prece olhando o sol. Estes elementos são, na realidade,
estranhos ao judaísmo e parecem haver chegado ao essenismo por via
sincrética, aproveitados de tantas religiões que corriam pelo
Oriente. Não se pode determinar com exatidão se neste sincretismo
intervieram a órfica, o helenismo em geral, o budismo ou o paganismo
sírio-palestinense.
Parece muito
provável que o essenismo contribuiu não só para o advento do
cristianismo mas também para a sua difusão. Na realidade, as
distintas seitas judeu-cristãs apresentam muitas afinidades com o
essenismo.
ZELOTES
Ao lado destas
três seitas maiores desenvolveu-se outra que teve sobretudo
importância política, a dos zelotes. Celote, "kana" em hebraico,
significa zeloso de algo. Durante a dominação romana foi uma seita
rigorosíssima na observância da lei judaica e que perseguiu a
independência territorial a mão armada. Sua primeira manifestação
política deu-se no início da dominação romana.
SADUCEUS
Também para esta
seita ou partido é difícil determinar a origem. Sabemos que existiu
nos últimos dois séculos do Segundo Templo, em completa discórdia
com os fariseus. O nome parece proceder de Sadoc, hierarca da
família sacerdotal dos filhos de Sadoc, que segundo o programa ideal
da constituição de Ezequiel devia ser a única família a exercer o
sacerdócio na nova Judéia. De modo que, dizer saduceus era como
dizer "pertencentes ao partido da estirpe sacerdotal dominante".
Diferiam dos fariseus por não aceitarem a tradição oral. Na
realidade, parece que a controvérsia entre eles foi uma continuação
dessa hostilidade que havia começado no templo dos macabeus, entre
os helenizantes e os ortodoxos. Com efeito, os saduceus, pertencendo
à classe dominadora, tendo a miúdo contato com ambientes
helenizados, estavam inclinados a algumas modificações ou
helenizações. O conflito entre estes dois partidos foi o desastre
dos últimos anos da Jerusalém judia.
Suas doutrinas
são quase desconhecidas, não havendo ficado nada de seus escritos.
Com muita probabilidade, ainda que rechaçando a tradição farisaica,
possuíram uma doutrina relativa à interpretação e à aplicação da lei
bíblica. O único que nos oferece alguns dados sobre suas doutrinas é
Flávio Josefo que, por ser fariseu e por haver escrito para o
público greco-romano, não é digno de muita
confiança.
Parece provável
que as divergências entre saduceus e fariseus foram mais que
dogmáticas, foram jurídicas e rituais. Com a queda de Jerusalém, a
seita dos saduceus extinguiu-se. Ficaram porém suas marcas em todas
as tendências anti-rabínicas dos primeiros séculos (D.C.) e da época
medieval
EBIONITAS
Dissemos que
reservaríamos algum espaço para a seita dos ebionim ou ebionitas,
cujo desenvolvimento abrange as épocas desde o profeta Samuel, ou
seja, o século IX (A.C.) até o século II (D.C.).
Foi o profeta
Samuel, que viveu há 2800 anos, que procurando na união a força de
seu povo, e a pedido deste, instituiu a monarquia e fez proclamar
Saul, rei de Israel. Este reino era então administrado por juizes
com um sistema autônomo de descentralização democrática. Foi também
Samuel que formou a seita dos ebionitas ou "humildes", integrada
pela "elite" intelectual da juventude de então e cujo principal
objetivo era ensinar mediante a prédica, a propaganda e o exemplo.
Quase todos os profetas que dali surgiram, entre os quais estavam
Isaías, Oséas, Miqueas, Habacuque, Amós, etc... são astros luminosos
que aclararam e honraram a seita. Os eleitos que chegavam ao último
grau de instrução e de iniciação estavam encarregados de promover
reuniões de propaganda para difundir seus princípios, para instruir
e moralizar o povo. Saíam sempre em grupos "Lahakat Haneviím",
reuniam-se em lugares altos onde executavam cantos e danças sagradas
ao som de harpas, flautas e violinos. O povo aglomerava-se ao redor
deles, e quando a multidão era compacta e sentia-se emocionada pela
música, os mais eloqüentes dentre eles pronunciavam discursos
inflamados convidando-o a afastar-se do mal, do vício, da mentira,
da injustiça e da iniqüidade. Eram exortados a praticar a caridade e
a justiça, a amar a verdade e a virtude, e depositar sempre
confiança e esperança na Providência e a ter fé no porvir da
humanidade. A palavra eloqüente desses oradores e a sua música
exerciam tal poder, que os ouvintes, nos refere o historiador
Gräetz, cheios de entusiasmo caíam em êxtase e sentiam-se
transformados.
Estes fervorosos
apologistas da profecia, acrescenta Gräetz, dirigidos por Samuel e
elevados pelo espírito divino, desempenharam uma parte considerável
na revolução moral que se operou naquela época. O filósofo grego
Teofrasto, sucessor de Aristóteles, em seu livro "Os caracteres" nos
conta as palestras que manteve com os chefes ebionitas em sua visita
à Palestina e participa de suas opiniões em detalhes
interessantes.
Depois da morte
de Samuel, o profeta Natan e depois dele Gad e o profeta Elias,
foram sucessivamente chefes supremos da Ordem. Com a morte deste
último, houve dificuldade de eleição entre Isaías, Osías, Miqueas e
Amós, dizendo-nos a este respeito o Talmud: "Vegadol
shebeculam-Hoshea", o que quer dizer que Oséas prevaleceu sobre os
outros (Talmud Pessachím, 87). Sob sua direção a seita foi
reorganizada numa base completamente nova, mais espiritual e mais
moral. A prédica e a propaganda tinham outro tema. Predicavam que a
religião não consiste somente em cumprir o dogmatismo e o
sacrifício, mas sim em amar e obedecer a Deus; praticar a caridade e
a justiça; ter piedade do desgraçado; socorrer o pobre; proteger o
órfão; defender a viúva; amar o estrangeiro e que estes atos são os
que agradam a Deus, tanto ou mais que qualquer outra cerimônia do
culto (1,22 S.P.R. Otsar Israel; 1, 37, 2). Ensinavam que a
faculdade de discernir e o conhecimento das coisas foram dadas ao
homem para que possa separar o que é bom do que é mal e prejudicial,
para que saiba o que lhe é necessário, o que deve desejar e odiar a
fim de alcançar o que lhe foi destinado, isto é, chegar a ser
perfeito e feliz. Declaravam que o homem não foi dotado de
pensamento e conhecimento somente para pensar, mas sim para
trabalhar, porque todo pensamento e todo conhecimento não são mais
que meios, pois a ação é o fim. Proclamavam a viva voz que a vida do
homem é uma longa agonia, somente suas aflições ficam, seus prazeres
são efêmeros e quase sempre de conseqüências nefastas. Sustentavam
que a vida não é mais que um sofrimento perpétuo: sofrimento do
nascimento, sofrimento dos dias maus, sofrimento do fracasso e da
irrealização dos nossos desejos e ilusões, sofrimento na velhice
pela amarga decepção da vida e sofrimento final da morte. Afirmavam
que não há mais que um único meio de suavizar a miséria de viver, de
tornar a vida mais tolerável: a prática da virtude, e que o único
consolo consiste na posse de uma consciência sem mancha e de um
coração puro. Os ebionitas tinham também seus signos de
reconhecimento e suas reuniões e trabalhos iniciavam-se como em
certas sociedades secretas. À pergunta: "Sois ebionita?" devia se
responder: "Três principiaram, cinco me completaram e sete
tornaram-me perfeito" (Mishná, Sanedrin, 1, 2). O chefe
ensinava-lhes que esses números eram sagrados desde a antigüidade e
que Moisés havia feito deles um uso misterioso na bênção que ordenou
aos sacerdotes: Ievaréchecha Adonai Veíshmerecha, 3; Iaer Adonai
Panav Elecha Vihunéca, 5; Issá Adonai Panav Elecha Veiassém Lechá
Shalom 7 ("Deus te bendiga e te conserve, Deus te ilumine e te
conceda Sua graça, Deus te olhe com misericórdia e te conceda a
paz").
Acredita-se que
os ebionitas tinham seus signos, seu santo e sua senha e que usavam
um "talit" no qual estava bordado um quadrado entrelaçado com um
triângulo, em cujo centro havia quatro letras: Iud, Nun, Reish, Iud,
que no alfabeto latino se traduz I.N.R.I. cujo significado
representava os nomes dos quatro elementos: ar, fogo, água e terra.
Em cada
ponta do
triângulo estavam escritas estas três palavras hebraicas: Fé,
Caridade e Esperança, que atualmente são chamadas Virtudes
Teológicas e que era o emblema da seita, tirada do sétimo versículo
do capítulo 12 do livro de Oséias: "Afirma tua Fé em Deus, pratica a
Caridade, e a justiça e põe Nele tua Esperança". À entrada da
reunião cada ebionita devia repetir os números misteriosos: 3, 5 e
7, quando então o Mestre respondia com estas palavras: "Filho
bendito do nome sagrado: o sublime número 9 simbolizado em Emet
(Verdade) é o último ideal do esforço humano, o símbolo da verdade
divina; tu podes entrar e iluminar-te com as luzes celestes que
claream esta assembléia de sábios".
Ao encerrar a
reunião, o Mestre repetia estas frases: "Recordemos que somos
ebionitas, os mais humildes e os mais modestos servidores de Deus,
da verdade e da justiça; que Deus está conosco -
Imanu-El".
CARAÍTAS
Quando o governo
judeu já tinha deixado de existir e o judaísmo havia ficado somente
nas esferas ético-religiosas, foram muitas as controvérsias havidas
entre os judeus, não só sobre assuntos particulares, mas também
sobre o assunto básico que foi a admissão da Lei Oral ao lado da Lei
Escrita.
Vimos que antes
da queda do Segundo Templo já existia esta divergência entre os
saduceus e os fariseus. Os caraítas seguem os saduceus e aceitam
somente a Bíblia como base da vida religiosa.
O caraísmo foi
iniciado por Anan ben David no século VIII (D.C.) e desenvolveu-se
por obra de Benjamin de Nahawend na Pérsia ocidental. Com ele, seus
sectários tomam o nome de "Bené Micrá", "Filhos da Bíblia", que
depois passou para "caraim", o mesmo que
"biblistas".
Esta seita
desenvolveu-se de tal forma que começou a constituir uma ameaça para
o hebraísmo rabínico. No século X, chega-se finalmente à vitória do
judaísmo rabínico, com o Gaón Saadiá. Mas o caraísmo não havia
terminado. Nos séculos XI-XII propagou-se pela Espanha e no império
bizantino, onde ficou até depois da conquista turca. Ao mesmo tempo
difundia-se na Rússia; no século XIII é encontrado na Criméia e dali
se difundiu por Wolhinia e Galizia. Houve entre os caraítas
personalidades destacadas nos séculos XVI e XVIII. No século XIX o
sábio Kikowtsh conseguiu demonstrar que os caraítas se encontravam
na Criméia desde o século VIII. Baseado nisto foi concedida aos
caraítas no ano 1863 a plenitude dos direitos cívicos. Em 1910 havia
na Rússia 13.000 caraítas e fora da Rússia, no Cairo,
Constantinopla, Jerusalém e Galizia, de 2.000 a
3.000.
HASSIDISMO
Desde o
princípio houve duas correntes no seio do judaísmo: de um lado o
formalismo ritual da Bíblia e o Talmud e do outro, a tendência ao
misticismo, ao ocultismo que criou a Cabalá e o Zohar. Daí a
oposição entre fariseus e essênios na época do Talmud e entre
talmudistas e cabalistas na Idade Média. O formalismo ritual, tão
rigorosamente praticado pelas massas do povo na Europa Oriental
entre os séculos XVII e XVIII, tendia fatalmente a produzir uma
reação e daí nasceu o hassidismo, isto é, o sistema de "hassid", que
em hebraico significa "pio".
Foi fundado no
ano de 1740 na Polônia pelo místico Israel ben Eliezer, conhecido
pelo nome de Baal Shem Tov: "o senhor de boa
fama".
O "hassidismo",
que começou por abandonar o formalismo ritual, despertou maior
importância ao sentimento religioso que à prática. Proclamou a
onipresença de Deus e por isso ordenou que a oração fosse feita com
devoção psicológica e alegria especial, até chegar a um êxtase que
permitia ao homem entrar em comunicação direta com a divindade.
Tornou sua a opinião da Cabala, segundo a qual toda ação humana tem
suas repercussões nas esferas do mundo divino e assim o homem pio e
justo, o "Tsadik", o ser que chega a despojar-se de todo pensamento
material e que vive nada mais que pelo espírito e para o espírito,
pode ser suscetível de modificar o curso dos
acontecimentos.
Assim como o
"hassidismo" teve eminentes defensores como um Dov Beer, Levi Isaac,
Josef Ha-Cohen, etc., teve também grande oposição na pessoa do Gaón
de Vilna e os "masquilim", isto é, os simpatizantes da cultura
moderna.
Seja qual for a
crítica que se haja podido fazer ao "hassidismo", este, segundo a
opinião de Edmond Fleg, devolveu à alma popular o sentido profundo
do divino que a casuística poderia ter lhe feito perder e deu à vida
religiosa e social do judaísmo, nos dois últimos séculos, a forma de
uma grande originalidade que inspirou a muitos escritores de
valor
ASHQUENAZIM E
SEFARADIM
Concluindo,
diremos algumas palavras sobre estes dois setores que formam o total
do conglomerado judeu do mundo: ashquenazim e sefaradim. Não o
faremos analisando a estrutura destes dois setores como grupos
irreconciliáveis, tal como fizemos com algumas seitas, das quais
tratamos anteriormente. Não excluímos a possibilidade de que em
futuro próximo haja um franco entendimento entre eles, que afaste
todo o germem da divisão. Consideramos como muito provável, e nossa
esperança marca esta direção, que ambos os setores se unam e
funcionem num mesmo corpo. Nosso propósito é unicamente responder à
nossa juventude, que a todo momento nos pergunta: "Que significam os
termos ashquenazi e sefaradi? Quando começou a cisão? Por quê razões
começou? Como poderia chegar-se a uma junção entre os dois grupos?
etc... etc...". É pois, para dissipar as inquietudes de nossa
juventude que tratamos deste tema:
1. - Ashquenazi:
deriva do termo bíblico "ashquenaz" (Gênesis, 10.3), termo aplicado
à Alemanha na Idade Média; é pois um adjetivo gentílico que se
traduz por "alemão", seu plural hebraico é ashquenazim ou alemães,
título dado ao setor representativo dos judeus da Alemanha, setor
que na Idade Média estava representado pelos rabinos deste
país.
2. - Sefaradi:
deriva do termo bíblico "sefarad" (Obadia 1, 20), identificado como
Espanha, o que prova que os profetas do exílio já tinham
conhecimento de que um grande contingente de judeus expatriados por
motivo da queda de Jerusalém havia se estabelecido na Espanha. O
plural de sefaradi ou espanhol é sefaradim (espanhóis). Depois da
expulsão da Espanha e Portugal, estes sefaradim dispersaram-se pela
Turquia, Holanda, Itália, norte da África, etc.
Até a Idade
Média, não parece ter-se feito, em parte alguma, menção de
ashquenazim e sefaradim. Neste período da história o pensamento
judaico viu-se dividido em dois campos: de um lado, o rabinato do
sul da França e Alemanha com Rashi, os tossafistas, Rabenu Guershon,
Meier de Rotenburg, etc., que se consagraram unicamente à exegese da
Bíblia, da Mishná e do Talmud; de outro lado, o rabinato da Espanha
que com a exegese dedicou-se a cultivar a filosofia, a poesia, a
gramática, etc.
Eram como dois
corpos distintos formados sob condições de vida diametralmente
opostas: o primeiro vivia perseguido e sob o feudalismo que apenas o
tolerava, vivia sob o terror de expulsões intermitentes que
paulatinamente transplantaram esse setor do judaísmo para Prússia,
Polônia, Rumania, Galizia, etc. Foi sob a influência rígida destes
países que se forjou o pensamento escolástico e dogmático de suas
produções e suas obras. O segundo grupo vivia na Espanha em
ambientes e condições extremamente favoráveis que lhe permitiam
desempenhar um papel destacado em todas as atividades
culturais.
De modo que,
para diferenciar os que pensavam, escreviam e trabalhavam sob a
influência do primeiro setor, chamou-se-lhes ashquenazim e aos do
segundo setor sefaradim. Mais tarde, tanto um como o outro nome
foram aplicados a todos os judeus dos dois setores. Posteriormente
estas distâncias no pensamento se ampliaram até chegar a diferenciar
também algumas partes do mesmo ritual. Por esta razão formaram-se
dois ritos: Minhag Ashquenaz e Minhag Sefarad, que foram
definitivamente instituídos, o primeiro pelos rabinos Simhá de Vitri
e Moisés Iserles e o segundo por Rabi Amram Gaón e Rabi José Caro,
respectivamente
HERODIANOS
Não eram uma
seita religiosa, como os saduceus, nem uma ordem social, como os
fariseus, mas um partido político, apoiando a dinastia de Herodes,
que reedificara o Templo. Favoreciam um império judaico
independente, governado por Herodes, sob o governo romano. Eram
judeus de nascimento e de crença pagã. Juntaram-se com os fariseus
para que apanhassem a Jesus em uma palavra, Mt 22.16; Mc12.13. Outra
vez, juntamente com os fariseus, conspiraram contra a vida de Jesus,
Mc 3.6; Mc 8.15.

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