PRIMEIRA IGREJA BATISTA EM TERESINA

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CÉLULAS, G - 12, ENCONTRO... VERDADES E DISTORÇÕES



Rosana Salviano

Igreja em células, G12,Encontro...todas as definições da mais nova prática do meio evangélico têm sido alvo de uma polêmica, que começou, no Brasil, no ano passado, e vem a cada dia tomando maiores dimensões. A discussão abrange opiniões extremas e opostas entre si. Enquanto para uns Células e G12, ou só células ou só G12 (!) são uma benção, para outros, são ciladas do inimigo e para outros ainda, não passam de um modismo. O maior alvo de críticas têm sido a corrente do chamado Movimento G12, visto como uma prática de heresias, principalmente por divulgar o Encontro. No dia 26 de agosto, por exemplo, a Associação Batista do Salvador (ABS) decidiu em Assembléia com a participação de mais de 60 igrejas acatar uma posição favorável ao método de multiplicação através de célula, mas, em contrapartida, rejeitar e repudiar o Movimento G12 "com seus adendos heréticos, como maldição hereditária, batismo do Espírito santo, regressão, mulher do pastor ser pastora, entre outros ensinos antibíblicos", destaca o informe no site de uma das igrejas participantes.

Entenda o G-12

O movimento de igreja em células no modelo dos 12, popularmente chamado de G-12, nasceu, enquanto estrutura, na Colômbia, com o pastor César Castellanos, fundador da Missão Carismática Internacional (MCI), em Santa Fé de Bogotá.

Depois de uma visita à igreja Yoido do Evangelho Pleno, de David Yonggi Cho, na Coréia do Sul, em 1986, Castellanos começa a estruturar seu trabalho nos moldes de igreja em células, porém, não se limita a copiá-los: a partir da realidade de sua igreja e seu país, cria um modelo próprio, baseado também numa visão do exemplo de Jesus e seus 12 discípulos. Ele escolheu 12 pastores, com os quais começou a encontrar-se semanalmente. Hoje, cada um deles supervisiona as igrejas satélites e vários departamentos do ministério, e tem abaixo de si outros 12, que seguem a mesma cadeia hierárquica até incluir os membros da igreja. De acordo com este modelo, o novo implantador de célula (discípulo), encontra-se regularmente com o líder de sua célula (discipulador). Até que uma pessoa encontre seus 12 discípulos, ela continua a liderar uma célula. Após encontrar os 12, que devem ser membros ativos de uma célula, ele irá se concentrar na supervisão desses ou poderá continuar a liderar uma célula normal. O conceito do grupo dos 12 é um meio de se multiplicar a liderança, e por consequência, multiplicar grupos mais rapidamente. "Seguindo o mesmo princípio de 2 Timóteo 2:2, os 12 ganhariam vidas e levantariam outros 12 líderes, estes outros 12 e assim por diante", explica a pastora Valnice milhomens em seu artigo A verdade sobre o modelo dos doze. Hoje, a MCI tem 13 mil células, com mais de 35 mil membros.

O Encontro

No modelo de Castellanos , o evangelismo é feito através de cada membro da célula mas o processo de discipulado passa, além do relacionamento com o discipulador, pela estrutura da Consolidação, um plano de cuidado ao novo convertido, Treinamento, através das escolas de líderes e seminários, e Envio. Entre os trabalhos desenvolvidos com os novos crentes durante o período da Consolidação, estão o Pré-Encontro, Encontro e Pós-Encontro.

Pré-encontro- inclui palestras doutrinárias, de princípios básicos para a vida cristã;

Encontro- um retiro espiritual, com ministrações que visam uma experiência profunda do novo convertido com Deus.

Pós-encontro- ciclo de palestras que têm o objetivo de ajudar o novo convertido a firmar-se na fé.

Em seu livro Liderança de êxito através dos doze, Castellanos relata o encontro como sendo "uma experiência genuína com Jesus cristo, com a pessoa do Espírito Santo e com as sagradas escrituras...o propósito é dar orientação, à luz da Bíblia, ao recém-convertido, sobre seu passado, presente e futuro com Jesus Cristo".

O que há de mal então?

Apesar de muito criticado por alguns pastores e lideranças do meio evangélico, o Modelo da Igreja em célula no Modelo dos 12 de Cesar Castellanos não é uma seita, como muitos acreditam, com métodos da nova era, hipnose, mandalas, e heresias. Algumas distorções do movimento, especialmente no Brasil, é que apresentam essas características.

Enquanto na Colômbia o Encontro é apenas um instrumento nas mãos da igreja em células, para os novos convertidos e agora, discípulos, aqui ele tem se tornado por algumas correntes como a estratégia principal do trabalho e para qualquer membro, de qualquer igreja. Alguns encontros brasileiros chegam a sugerir que se alguém não foi ao Encontro, ainda não nasceu de novo, quando para Castelanos, ele é um retiro espiritual como qualquer outro, que visa crescimento espiritual, com estratégias específicas para o alcance dos novos convertidos. Algumas delas:

Silêncio- a recomendação é para que na primeira noite, após o trabalho, o novo crente reflita sobre os projetos de Deus para sua vida, principalmente porque Castellanos leva em conta que este pode ter se decidido por Cristo mas ainda sem experimentar um relacionamento íntimo com Deus, uma conversão genuína.

Proibição de falar sobre o Encontro- Em Bogotá, ao final do Encontro o participante recebe um correio de estímulo de sua família e participa de uma recepção surpresa ao chegar em casa. É apenas quanto à isso que se pede segredo quando chega um novo convertido.

Cura interior- como o retiro visa crescimento e uma experiência com Cristo, as ministrações abordam temas relacionados ao velho e novo homem, visando cura, quebra de maldições e arrependimento.

Já no Brasil, alguns modelos adaptaram o G12 com práticas polêmicas e duvidosas, como regressões induzidas para o momento de cura e efeitos como luzes apagadas, música alta e repetitiva, queima de cruzes, colchões para relaxamento e fogos, bem como, proibição de falar sobre o evento, proibição do uso de máquinas fotográficas e restrições à comunicação inter-pessoal. Outros fazem do encontro um ciclo de palestras sobre prosperidade e outros ainda impõem como regra que cada um dos participantes deve enviar mais cinco pessoas no próximo encontro, inclusive bancando todas as despesas. Tudo isso, não apenas para novos convertidos, como o modelo criado por Castellano, mas para membros de igrejas em geral. Em alguns casos, são apenas métodos adaptados, mas em outros, regras que distorcem a visão original.

Outros modelos

Distorções à parte, as igrejas que têm seguido um modelo de células, ou grupos familiares, têm descoberto um crescimento explosivo. A igreja de David Cho, na Coréia do Sul, por exemplo, tem 153 mil membros em 23 mil células. Em Hon Kong um estudo mostrou que as igrejas tradicionais estão recuando e as igrejas em célula crescendo. Enquanto o número de cristãos do país caiu de 4,3% em 1994 para 2,9% em 1999, uma pesquisa do ano 2000 feita pela Rede de Igrejas em Células mostrou um crescimento de 130% em suas igrejas, e 91,8% dos novos membros não vieram de outras denominações evangélicas, são novos convertidos.

No Brasil, um dos exemplos bem sucedidos é o da Igreja Irmãos Menonitas, de Curitiba-PR, do pastor Robert Lay. Ele implementou um modelo de origem no movimento Touch, da igreja do pastor Ralph Neigbour, no Texas. A igreja curitibana tem hoje cerca de 800 membros e 60 células. Seus líderes são preparados para batizar, ministrar a ceia e aconselhar, funções antes só atribuídas aos pastores.

"A finalidade (das células) é uma enorme aglutinação de pessoas...isso fará a igreja inchar, não crescer; haverá uma demanda de ministérios..." escreveu um pastor da Igreja Presbiteriana Independente, Carlos Metittier, em um artigo disponível na Internet. "A primeira impressão é a de que se quer quantidade de batismos", declarou o pastor José Vieira Rocha, da Igreja Batista, à revista Vinde. Para ele, o movimento é um modismo que ainda facilita a penetração do misticismo em sua estrutura, "porque não há tempo suficiente para formar uma liderança madura", avalia.

A visão do ministério de Neighbour, no entanto, prevê um crescimento gradativo, com uma multiplicação que acontece quando o grupo atinge o número de 12 pessoas, mas somente no caso de pelo menos duas delas estarem aptas a se tornarem líderes. Ou seja, além do evangelismo, há uma forte preocupação com o amadurecimento espiritual de cada um. A estrutura da igreja é descentralizada, porém, permanece integrada. Os pastores delegam autoridade sobre os líderes de célula mas continuam responsáveis por elas.

A visão já é compartilhada por várias outras igrejas, entre elas, a Primeira Igreja Presbiteriana Independente de Londrina, a maior da denominação no Brasil. O modelo vem sendo implantado, com adaptações às necessidades locais e doutrinas da IPI, desde 1998, e hoje, a igreja com cerca de 2 mil membros tem 82 células, com a média de 10 pessoas em cada uma. A estimativa é chegar ao ano de 2005 com todos os membros em célula, segundo informações do pastor Mathias Quintela de Souza. A igreja se sente na liberdade de implementar a visão de acordo com sua realidade. "As células são uma contribuição à igreja, não uma imposição", explica. Para ele, as células mobilizam todos os membros de uma igreja para a comunhão e exercício do cristianismo prático. "E a preocupação não é com o crescimento da igreja, mas com a qualidade desse crescimento", completa.

Quanto às práticas e críticas ao sistema, Quintela é enfático. "Os valores e princípios da Igreja em Células confrontam o clericalismo tão presente na nossa formação e só criam problemas para nós pastores quando nossa preocupação com o poder é maior do que a nossa disposição de servir no Espírito de Cristo", responde. Mas para ele, questões como batismo e ministração da ceia não devem ser o mais importante na estrutura, a ponto de criar conflitos. "Na nossa igreja, para um supervisor de área se tornar pastor da igreja, ele deve cumprir com as exigências da denominação, precisa fazer Teologia, e o batismo só será feito por esses pastores, conforme determinação doutrinária da IPI", coloca.

Pelos frutos conhecereis

A Igreja em células, embora recente no Brasil, já proporcionou muitas experiências pelo mundo todo. Algumas igrejas iniciaram um trabalho de células, que não deu certo. Outras, prosperaram. Sem generalizar os maus exemplos, é preciso buscar discernimento no Espírito para conhecer qual seja a boa, perfeita e agradável vontade do Senhor (Romanos 12:2). O homem é falho, pode destruir projetos que tenham nascido no coração de Deus. A Igreja é falha, pode não experimentar um avivamento genuíno por escolher o caminho errado.

Joel Komiskey, autor do best seller Crescimento Explosivo da Igreja em células, pesquisou os segredos das maiores igrejas do mundo e chegou a conclusão que os líderes bem sucedidos são aqueles que gastam mais tempo buscando a face de Deus e dependendo Dele para direcionar o ministério. Mas não param na oração. "Eles descem do cume da montanha para interagir com pessoas reais, cheias de problemas e feridas...eles fixam seus olhos em um alvo- alcançar o mundo perdido para Cristo por meio da multiplicação das células", escreve.

O mesmo autor deixa uma parábola, que pode ser real:

"Certo homem possuía uma linda horta que produzia comida rica e abundante. O seu vizinho viu aquilo e plantou a sua própria horta na primavera seguinte. Mas não fez nada além disso. Nada de regar, cultivar ou adubar. No outono ele voltou à sua horta devastada. Não havia fruto e ela estava tomada pelo mato. Ele concluiu que o trabalho na horta não trazia resultados. Ponderou que o problema era o solo que não era bom, ou talvez que ele não tivesse mão para isso.

Enquanto isso, um terceiro vizinho começou a fazer sua horta. Ela não produziu imediatamente tanto quanto a do primeiro homem, mas ele trabalhou duro e continuou a aprender novas habilidades. Enquanto labutava, aprendia. À medida que ia colocando o que havia aprendido em prática, ano após ano, sua horta produzia uma colheita cada vez mais abundante..."

Rosana Salviano é
Jornalista do eucreio.com


 

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