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Os desafios do cristianismo às portas do
novo milênio
A doutrina de Cristo, que
dominou a vida do Ocidente nos últimos 2 000
anos, continua vigorosa e com
capacidade de adaptar-se ao mundo
moderno
Ninguém desconhece a história que se segue, crendo ou não em sua
origem sagrada. Um judeu das montanhas da Galiléia com reputação
de doutrinador e capacidade de curar as pessoas aparece aos 33
anos em Jerusalém, durante a Páscoa judaica. Em três dias,
desenrola-se em torno dele o drama de solidão, humilhação e morte
que acompanha a humanidade há vinte séculos. Ele é preso, julgado,
condenado por traição e executado na cruz ao lado de criminosos
comuns. Nenhum historiador registrou inequivocamente sua passagem
pelo mundo dos homens. Mas 2.000 anos depois que os eventos acima
ocorreram, segundo os quatro evangelistas, Jesus é o personagem
dominante da vida ocidental. Mesmo entre as pessoas que não fazem
parte do rebanho atual de mais de 2 bilhões de seguidores do
cristianismo, ele é um símbolo
poderoso. A moral e os
costumes, a arte e a ciência, a política e até a economia, toda a
bagagem cultural com que a humanidade entrará no próximo milênio
foi tocada e, freqüentemente, moldada pelo cristianismo. Nenhum
poeta ou o mais genial dos escritores conseguiu criar um
personagem tão influente como esse aprendiz de carpinteiro que
dizia a seus seguidores, sem rodeios, ser o filho de Deus: "Eu e
meu Pai somos um". Até os séculos passaram a ser medidos a partir
do nascimento de Jesus. O cristianismo triunfou de geração em
geração, enfrentando e vencendo desafios com uma força que para os
fiéis só pode ser de inspiração divina. Como registra o Velho
Testamento: "Até aqui nos ajudou o Senhor". Mas como será daqui
para a frente? Como o cristianismo enfrentará os desafios que se
apresentam agora, no alvorecer do terceiro milênio? Como serão a
face e a voz de Jesus Cristo num mundo em furiosa transformação
tecnológica e de costumes? Firmemente assentados na história
vitoriosa da religião cristã, os estudiosos não se abalam com o
gigantismo dos obstáculos que enxergam pela frente. "Podemos
mandar câmaras fotografar os anéis de Saturno e as luas de
Júpiter, mas elas nunca vão revelar a verdadeira face de Deus nem
enviar uma imagem do paraíso", diz o sociólogo americano Rodney
Stark, da Universidade de Washington, autor de The Future of
Religion (O Futuro da Religião). "A religião em sua forma mais
pura sempre estará fora do alcance das especulações
racionais."
O que impressiona na
trajetória histórica dos seguidores de Cristo é o fato de que a
religião podia muito bem ter-se estatelado. Nos primórdios do
primeiro milênio, o cristianismo sofreu bastante até deixar a
condição de seita judaica dissidente e se tornar a religião
oficial do Império Romano. Na aurora do segundo milênio, imersos
nas trevas da Idade Média, os cristãos mandaram seus guerreiros às
cruzadas com a missão de combater em nome de Cristo os infiéis
muçulmanos, na época detentores de uma civilização refinada com
conhecimentos de astronomia, matemática e filosofia. Entendiam
também de coisas mais prosaicas mas muito úteis naquele tempo,
como a fabricação de aço mais resistente para as espadas da guerra
santa. Mais tarde o cristianismo escaparia da armadilha cruel da
Inquisição e da incômoda condição de fiador de monarquias
sanguinárias e corruptas baseadas no direito divino dos reis. O
ramo mais vigoroso do cristianismo, o católico, pode reivindicar
como milagre o fato de ter sobrevivido a um grupo de papas
dissolutos, assassinos e gananciosos que reinaram há cerca de 500
anos. Eles faziam guerra, elegiam os filhos bispos, tinham
amantes, vendiam promessas de salvação eterna a ricaços que se
dispunham a pagar por essa garantia. Basta examinar a ficha de um
deles para ter boa idéia do conjunto. Alexandre VI (1492-1503), o
papa Bórgia, foi eleito para o trono de Roma por um conclave
corrupto, teve quatro filhos ilegítimos, promoveu orgias no
Vaticano. Foi acusado pelos contemporâneos de assassinatos e
complôs. "O cristianismo em geral e a Igreja Católica, em
particular, resistiram a impactos tão brutais que acho
justificável seus seguidores acreditarem na natureza divina de
seus alicerces", diz Werner Kelber, pesquisador do Novo
Testamento, que se define como
incrédulo. Quais são
os desafios do cristianismo às portas do novo milênio? VEJA ouviu
uma dezena de teólogos e estudiosos da religião e leu seis livros
recentes que tratam da questão em busca de uma resposta
satisfatória. O resultado da investigação é uma lista fascinante
de indagações.
Jesus histórico – Não se fala aqui do Jesus
dos altares. Tampouco daquele que cada um traz no peito quando
comunga da fé dos cristãos. O Jesus histórico é o personagem que
nasceu, viveu e morreu na Palestina, em carne e osso, num período
histórico determinado, numa época em que reinava o imperador
romano Augusto. Este personagem está sob intensíssima
investigação. Um grupo de pesquisadores americanos reunidos sob o
rótulo de Seminário de Jesus irrompeu recentemente na cena dos
estudos religiosos sustentando que o trabalho dos quatro
evangelistas, Mateus, Marcos, Lucas e João, não tem valor como
prova material da existência de Cristo. O quarteto escreveu suas
versões entre quarenta e 100 anos depois da morte de Jesus, e são
as fontes mais próximas do mestre da Galiléia. Segundo os
integrantes do Seminário de Jesus, os evangelistas enxergariam seu
retratado como um profeta do Velho Testamento e não como o
fundador de uma nova religião revolucionária. "Com a evolução dos
mecanismos científicos de estudo das relíquias e provas históricas
o mais certo é que, a cada ano, se vai provar que muito pouco da
narração do Novo Testamento é confiável", diz o canadense John
Dominic Crossan, um dos mais ativos pesquisadores do grupo. "Não
podemos ter certeza de nada que Jesus realmente disse porque não
existem testemunhos irrefutáves daquela época", argumenta Stephen
Mitchel, autor de um documentário de televisão famoso, O Evangelho
Segundo Jesus. Os estudiosos do Seminário de Jesus são
contraditados por uma corrente mais tradicionalista, para a qual o
fato de não brotarem evidências arqueológicas da passagem de
Cristo pela Palestina só prova uma coisa: que é muito difícil
reconstruir a história arcaica da humanidade, especialmente quando
se buscam sinais de indivíduos particulares, mesmo que eles tenham
tido uma existência extraordinária. Outra corrente se acha
satisfeita com as provas já existentes. Fora da Bíblia, é
encontrada apenas uma referência à passagem de um certo Jesus pela
Palestina. Flávio Josefo, historiador judeu de cidadania romana,
em seu livro Antigüidades dos Judeus, escrito no ano de 94, fala
de um certo "Jesus, um homem sábio, que fazia coisas
extraordinárias e pregava para o povo". Outro autor romano,
Plínio, o Jovem, do fim do século I, descreve um grupo de fiéis
rezando e cantando hinos a "Cristo, como se fosse um deus".
Secularização – Em bom português significa
simplesmente que as pessoas tendem, pela própria dinâmica da vida
moderna, a fazer ouvidos de mercador para os ensinamentos das
igrejas. A indiferença de quem ouve é o pavor de todos os
doutrinadores. As pessoas querem ser bons católicos ou evangélicos
sem ter de seguir à risca cada um dos ditames dos sacerdotes e
pastores. É possível ser um bom cristão e fazer sexo antes do
casamento ou usar métodos anticoncepcionais artificiais como a
pílula? Pesquisa do Seminário de Jesus com católicos americanos
chegou a um número avassalador: 83% das pessoas acham que não cabe
aos religiosos dar opiniões incontrastáveis sobre tais questões do
foro íntimo de cada um. Pesquisas semelhantes feitas no Brasil, na
Itália e em outros países de forte tradição católica apontam a
mesma tendência, mesmo que os números sejam menos
contundentes.
Modernidade – No passado, a Igreja Católica
afastou as mulheres do sacerdócio e proibiu os padres de se
casarem. Atualmente, isso começa a parecer para muitos devotos um
dogma que engessa a fé em regulamentos ultrapassados.
Ecumenismo – É extremamente complexo o desafio
de manter a unidade da doutrina cristã ao mesmo tempo que se fazem
aberturas na direção de outras crenças. Como admitir a existência
de outros credos sem perder a fé na hegemonia dos princípios
cristãos? Católicos e protestantes, que deveriam ser os mais
próximos, ainda não resolveram suas divergências essenciais.
Excomungado pelo papa Leão X em 1521, o monge alemão Martinho
Lutero foi o pai da Reforma Protestante. Lutero rebelou-se contra
a venda de indulgências, uma fonte poderosa de divisas para o
papado. Foi com dinheiro arrecadado com a venda de indulgências
que a Basílica de São Pedro foi construída. Apesar dos vários
acenos de boa vontade, essa questão central não foi debatida a
sério nos encontros ecumênicos de alto coturno da hierarquia
religiosa de ambos os lados. Católicos e judeus, separados no
berço de suas civilizações, ainda têm um longo caminho a percorrer
para estabelecer bases mínimas de convivência.
A
ameaça do islã – O islamismo é a religião que mais cresce no
mundo. Embora seja marcadamente étnico, identificado com os
árabes, o islamismo tem alcançado pelas migrações uma penetração
crescente na Europa, o mais tradicional reduto cristão. "O
islamismo já é a segunda religião mais numerosa na Alemanha, na
França e na Itália", diz o padre e historiador da Igreja, José
Oscar Beozzo. O embate com o islã traz embutida uma contradição
incontornável. O cristianismo vive hoje num ambiente da mais ampla
liberdade religiosa, o que permite, por exemplo, que o islã
construa uma de suas maiores mesquitas em plena Roma dos santos e
dos papas. Mas os cristãos têm de disputar espaço com o islamismo
que exclui, a vertente fundamentalista da religião criada por
Maomé no século VII da era cristã. O fundamentalismo islâmico não
só é contra a liberdade de fé como é a favor da teocracia, do
Estado religioso. A construção de qualquer templo que não seja uma
mesquita é rigorosamente proibida nos países islâmicos. O
islamismo não se contrapõe apenas ao cristianismo. "Com o fim do
comunismo, é hoje o único foco de resistência ao pensamento de
livre mercado ocidental. Ao se fechar dentro da prática religiosa,
procura impedir a destruição de sua identidade religiosa e
nacional", diz o filósofo Mario Sergio Cortella, professor da
Pontifícia Universidade Católica, PUC, de São Paulo. "Com os
dólares do petróleo e as armas que herdaram da Guerra Fria, eles
se tornaram fortes o bastante para enfrentar o pensamento
dominante da civilização cristã ocidental."
Os
pecados do cristianismo – O papa João Paulo II tem se
empenhado como nenhum outro antecessor para tirar dos ombros da
Igreja os pecados acumulados nos tempos duros da afirmação da fé
cristã. "Os cristãos não podem dar as boas-vindas ao Terceiro
Milênio sem se arrepender de seus pecados históricos", disse o
papa. O chefe da Igreja tem feito isso com estilo e graça. Ele
desculpou-se em nome da Igreja pela condenação de Galileu Galilei,
o sábio punido pela Inquisição por sustentar que a Terra não era o
centro do universo. João Paulo II delimitou onde começa a fé e
termina a ciência. "A missão da Igreja não é ensinar como o céu
foi feito, mas mostrar o caminho até lá", disse o papa.
Desculpou-se também pelo fato de a Igreja ter sido avalista
ideológica das atrocidades cometidas pelos conquistadores europeus
na América portuguesa e espanhola há 500 anos. Todas as
desnorteantes questões acima têm sido respondidas pela hierarquia
das igrejas cristãs. Os protestantes armaram a mais fenomenal
defesa em torno da idéia de que é uma imensa perda de tempo
procurar evidências científicas da passagem de Jesus pela
Palestina. O mais ardoroso defensor da tese de que a sacralidade
da fé se basta é o historiador americano Luke Timothy Johnson, da
Universidade Emory. Num livro inflamado, escrito numa linguagem
acessível, Johnson argumenta que os caçadores da arca perdida do
cristianismo acabam eles próprios atacando verdades firmadas no
decorrer de séculos de adoração cristã. "Eles estão distorcendo
questões de fundamental importância para sustentar seus pontos de
vista materialistas", diz Johnson. O papa João Paulo II deu uma
contribuição decisiva à questão em 1989. Nessa época, testes
científicos haviam sido feitos no Santo Sudário, o manto que teria
servido de mortalha para o corpo de Jesus. Esses testes
desqualificaram a relíquia como uma tela produzida na Idade Média.
Diante dessas revelações, depois colocadas em dúvida por testes
subseqüentes, o papa não vacilou. "Acredito que o Santo Sudário é
genuíno", disse ele. Johnson também mantém o respeito pela
relíquia. "Quando uma questão é elevada a um mistério da fé não
basta uma medição de carbono 14 para derrubá-la de sua glória",
diz o historiador. Testes mais recentes reabilitaram a relíquia.
Ela conteria partículas de pólen de flores que só existem na
região onde se acredita que Jesus tenha morrido. A
maioria dos teólogos vê na história do cristianismo um permanente
movimento de pêndulo entre o que eles chamam de carisma e de
poder. Ou entre a modernidade e o dogma. Teria sido sempre assim
na história do cristianismo, de modo que as atuais contestações
sobre o celibato ou a ordenação de mulheres seriam apenas
temáticas novas de questões que se repetem ciclicamente. Quando
nascem, as igrejas são tomadas pelo fervor religioso, pelo
encantamento dos devotos com a revelação divina, com a liturgia e
com a doutrina. Essa força espontânea tem seus espasmos na
História – ela vai e volta. Ela brota da necessidade humana de
desfrutar a possibilidade do sobrenatural. Chega então outro
momento pendular em que, além da espontaneidade e da fé, o
movimento precisa criar ou firmar estruturas e burocracias para
sobreviver. "A história do cristianismo reflete de maneira clara
este movimento pendular", explica Décio Passos, professor de
ciência da religião da PUC de São Paulo. Para alguns teólogos,
portanto, não há razão para preocupações. Por esse prisma, o
cristianismo estaria recuperando neste fim de milênio parte do
frescor de seus primeiros dias, numa nova volta do pêndulo que
estaria levando os fiéis de novo às missas e aos cultos, como de
fato acontece. No seu início, o cristianismo era uma
seita do meio rural judaico que congregava uma pequena comunidade
reunida em torno dos ensinamentos de Jesus. Seus adeptos estavam
ali mais para ajudar uns aos outros do que em busca da salvação
eterna. O cristianismo cresceu e se espalhou no mundo empurrado
pela força poderosa de sua mensagem. O mandamento de amar ao
próximo como a si mesmo foi uma novidade completa para a época. A
capacidade de servir ao outro foi a mola propulsora que
transformou a seita de dissidentes judeus em religião oficial do
Império Romano no curto espaço de 300 anos. O americano Rodney
Stark apegou-se a esse detalhe para explicar o fenômeno do
crescimento vertiginoso do cristianismo, que passou de 1.000
devotos no ano 40 para mais de 30 milhões três séculos depois. De
acordo com Stark, uma epidemia, provavelmente de varíola, que
matou um terço da população do Império Romano por volta do ano
165, foi a tábua de salvação do cristianismo.
Entregues à própria sorte diante da calamidade, sem poder contar
com o Estado que não se ocupava dessas coisas, os romanos pagãos
ficaram maravilhados com a atitude dos cristãos que se
encarregaram de cuidar das vítimas sem espera de recompensa. "A
nova fé deu melhores explicações à sociedade, os valores de amor e
caridade serviram melhor na atenção aos desvalidos", escreveu
Stark num outro livro, The Rise of Christianity (O Crescimento da
Cristandade). Foi a revolucionária atitude de solidariedade do
cristianismo primitivo que lhe arrebanhou
seguidores. O
pêndulo da religião moderna inclina-se hoje para seu lado
carismático, para uma Igreja mais preocupada em louvar a Deus e
servir ao próximo do que em promover a revolução, influenciar
governos, mandar nos destinos terrenos das pessoas. Como sempre
aconteceu, a Igreja se dispõe a desempenhar sua missão recorrendo
aos recursos fornecidos pela época e ambiente peculiares. Assim
como nas origens – adotou em sua liturgia elementos do teatro para
fazer sua mensagem mais compreensível aos fiéis iletrados –,
atualmente ela lança mão dos meios que a tecnologia moderna lhe
oferece. "Vivemos na era da informação e as religiões que, como o
cristianismo, se estabeleceram por meio do uso da palavra hoje têm
de se integrar à cultura da imagem, da televisão e dos
megaeventos", diz José Oscar
Beozzo. A época moderna,
mesmo criando desafios, parece propícia ao cristianismo, que está
numa fase oposta ao marasmo de anos atrás, quando as igrejas se
apoiavam mais nas formalidades do ritual do que no coração dos
fiéis. "A religião institucionalizada, estruturada para conservar
sua tradição e seu modo de vida, acaba perdendo a força", observa
o padre Alberto Antoniazzi, coordenador do curso de teologia da
arquidiocese de Belo Horizonte. O desafio da religião de Jesus no
mundo frenético no fundo seria da mesma natureza daqueles que ela
circunavegou no passado: adaptar-se sem perder a essência. Para
quem já enfrentou dilemas abissais em outros períodos históricos,
não parece uma tarefa muito difícil.
Veja - Edição 1
628 - 15/12/1999

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