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A Queda dos Iluminados de
Hebreus
6:4-7
Calvino
e Matthew Poole
Moisés C.
Bezerril
Este trabalho consiste num
estudo bíblico de Hb 6:4-6, baseado no pensamento de João Calvino e
Matthew Poole, um teólogo puritano genebrino do século XVII.
Hb 6:4-6
"É impossível, pois, que
aqueles que uma vez foram iluminados e provaram o dom celestial e
se tornaram participantes do Espírito Santo, e provaram a boa
palavra de Deus e os poderes do mundo vindouro, e caíram, sim, é
impossível outra vez renová-los para arrependimento, visto que de
novo estão crucificando para si mesmos o Filho de Deus, e
expondo-o à ignomínia".
Até que ponto Jesus é suficiente
para nossa salvação? Certa vez, sintonizei-me numa emissora de rádio
que apresentava um programa considerado evangélico e o pregador
dizia estas palavras: "Não troque sua salvação por qualquer
‘ninharia’. Há pessoas que perdem a salvação por coisas bobas;
mocinhas, por qualquer vaidade, estão perdendo a salvação; por causa
do orgulho perdem a salvação. Meus irmãos não percam sua
salvação". Isso nos faz indagar: Até que ponto Jesus é
suficiente para a salvação desse pregador? As palavras deste texto,
à princípio, são palavras que parecem nos fazer pensar que Jesus não
foi suficiente para a salvação daqueles hebreus que caíram. Muitos
afirmam crer em Jesus para a salvação, mas para eles só Jesus não é
suficiente para salvá-los.
Parece até haver um problema
nesta epístola em relação ao ensinamento dos outros livros
neo-testamentários, pois o autor parece estar ensinando uma perda de
salvação ou uma insuficiência de Cristo. E, na verdade, muitos
abandonam este texto e não pregam sermão algum nele. Isso, porque
muitos, ao se depararem com o conteúdo, sentem dificuldade por dois
sérios problemas encontrados aqui.
O primeiro problema de Hb 6:4-6
é a queda dos iluminados. O segundo problema é a total
impossibilidade de uma restauração ou renovação para os que
caíram. O texto diz que é "impossível renová-los para
arrependimento". A palavra grega ADYNATON , "impossível",
dá a idéia, no N.T., de uma total impossibilidade, aplicada à
paralisia ou enfermidade que anula qualquer desempenho de força, e é
uma expressão comum para fraqueza, (At 14:8; Rm 8:3; Rm 15:1). Isto
indica que não há nenhuma possibilidade de que estes que caíram se
levantem novamente e sejam restaurados. Parece-me que aqui também
não há perdão para os que caíram. São duas dificuldades. A primeira
parece ser um problema para os calvinistas pois fala da queda dos
que outrora foram iluminados; a segunda parece ser um problema para
os arminianos, pois se deparam com o problema da impossibilidade da
renovação e do perdão. Não é tão fácil tomar uma postura arminiana
em afirmar que o texto afirma a possibilidade da queda dos
iluminados, sem levar em conta que esses, por si, não podem voltar
ao arrependimento. Como resolver a questão? A igreja ocidental
sentiu uma dificuldade com este texto porque aparentemente quem cai
não tem mais possibilidade de perdão.
A resposta a estas duas questões
está na expressão "cair". Há necessidade de um entendimento
teológico desta queda. Que tipo de queda é esta? Se não entendermos
a que tipo de queda o autor aos Hebreus se refere, não poderemos
entender que negação da possibilidade de renovação e perdão é
esta.
Se os iluminados caem por causa
de pecado, será que há pecado para o qual não há restauração nem
perdão? Qual pecado para o qual não há possibilidade de renovação e
arrependimento? Apenas o pecado contra o Espírito. Dessa forma, os
iluminados só podem cair de maneira que não haja renovação e perdão
para eles se puderem cair num tipo de pecado para o qual não há
possibilidade nenhuma de restauração. O autor está dizendo que não
há perdão, que é impossível que eles sejam restaurados.
Em certo sentido, o crente pode
ser acometido de algumas quedas. A queda do estado de cristão
comungante nominal; a queda do vigor espiritual; a queda do
crescimento espiritual; a queda no pecado que leva o homem a uma
letargia espiritual, ao sono profundo de modo que ele vai se
desviando da intimidade com o Senhor, da comunhão dos santos e se
torna parcialmente privado da graça de Deus. Veja que privado da
graça não significa perder a graça. Os que crêem que pode-se perder
a salvação e acham que a queda destes iluminados se dá por causa de
algum pecado comum, estão caindo num sério problema da afirmação da
insuficiência de Cristo para nossa salvação. Jesus, ou
é suficiente para minha salvação ou não o é. Se Ele é suficiente,
estarei salvo, mas se Jesus não é suficiente para minha salvação,
então eu tenho de cooperar com Ele para alcançar esta salvação e não
posso ter certeza disso, nem mesmo um segundo sequer, pois não sei a
que hora vou pecar. Portanto é muito sério dizer que estes
iluminados caíram por causa do pecado. Ou seja, um pecado de roubo,
prostituição, assassinato. O autor aos Hebreus não está tratando
deste tipo de pecado aqui. A queda é muito mais séria porque a
conseqüência é muito mais severa: é impossível a restauração.
Na história bíblica, muitos que praticaram certos pecados foram
restaurados pelo arrependimento. Um exemplo disto foi Davi. Mas,
então, que queda é esta que não há restauração?
A queda não refere-se a qualquer
tipo de pecado contra Deus. A palavra grega para "queda"
(PARAPTÔMA), pode muito bem referir-se à "ofensas comuns" do
dia a dia de um cristão (Mt 6:14; Mc 11:25; Gl 6:1), bem como ao
estado de morte espiritual e condenação eterna, no qual se encontram
todos aqueles que ainda não foram vivificados e ressuscitados por
Deus em Cristo Jesus (Rm 4:25;5:15-18,20; Rm 11:11; II Co 5:19; Ef
1:7; 2:1,5; Cl 2:13). Destes dois significados, o que de fato deve
fazer parte do texto de Hebreus 6 é exatamente o segundo, pelo fato
do primeiro referir-se à pecados passíveis de restauração, enquanto
o texto em estudo refere-se à algo que não tem restauração. O texto
nos traz a revelação de um tipo de pecado tão tremendo que não pode
ser restaurado em tempo algum. A queda dos hebreus, para os quais
não há perdão, os quais são chamados de iluminados, é a mesma queda
a que Paulo se refere em Gálatas 5.1-4:
"Para a liberdade foi que
Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais,
de novo, a jugo de escravidão. Eu, Paulo, vos digo que, se vos
deixardes circuncidar, Cristo de nada vos aproveitará. De novo,
testifico a todo homem que se deixa circuncidar que está obrigado
a guardar toda a lei. De Cristo vos desligastes, vós que procurais
justificar-vos na lei; da graça decaístes".
Este é o pecado para o qual não
há perdão: a insuficiência de Cristo para a salvação.
Eles estavam buscando justificação pela lei: "...procurais
justificar-vos na lei...". Era o mesmo problema dos iluminados
que caíram em Hebreus 6. Estavam negando toda a obra da redenção
para sua salvação e agora queriam enfrentar a Lei "de peito aberto",
para serem justificados. Paulo diz que se eles fizessem isso,
estariam "obrigados a guardar toda a lei" (Gl 3:10). Só
existem dois caminhos para a salvação: O caminho da Lei ou Cristo.
Ou você escolhe Cristo pela fé para que a justiça dele seja
considerada a sua, colocada entre você e Deus, de tal forma que Deus
ao olhar para você não vê seu pecado, mas vê a justiça do Seu Filho
Jesus Cristo e assim a Sua ira não lhe encontra; ou você busca
cumprir a Lei para a salvação. A lei salva também. Como? Quando Deus
propôs vida eterna a Adão, deu-lhe uma Lei e disse: "Adão você
cumpre minha ordem e será recompensado". Eis a Lei para a vida
eterna. Mas há uma problema: a quem quer salvar-se pela Lei hoje,
Deus exige que ela seja cumprida totalmente e por alguém sem pecado;
nem um ponto sequer pode ser quebrado, nem um simples tropeçar da
Lei. Você quer ser salvo assim? Quer ser salvo pela Lei, então terá
de cumprir toda a Lei(Gl 3:10).
O que Paulo estava dizendo era:
a pessoa que escolhe ser salva pela Lei está perdida! Por que?
Porque não há quem cumpra a Lei e vocês têm de, pela fé, reivindicar
a justiça de Cristo para serem salvos. Enfrentar a Lei para a
salvação é decair da graça. No estado de pecado a Lei não salva mais
o homem, mas sim a graça. Quem quiser se aventurar pelo caminho da
Lei tem de cumprir toda a Lei, diz Paulo. Mas, ainda assim, fomos
salvos por causa do cumprimento da Lei. Como? Não porque nós a
cumprimos, mas porque Jesus a cumpriu cabalmente por nós.
Enquanto o problema dos gálatas
era a circuncisão, o problema dos hebreus era a volta ao judaísmo e
ao sacrifício judaico. Ambos eram considerados por eles como
caminhos de justificação. Dessa forma posso entender por quê os
hebreus sofreram uma queda. Como se anula o sacrifício de Cristo? No
versículo 2, Paulo diz: "Eu, Paulo, vos digo que, se vos
deixardes circuncidar, Cristo de nada vos aproveitará" (Gl 1:2)
Ainda em Romanos 4:14 ele diz: "Pois, se os da lei é que são os
herdeiros, anula-se a fé e cancela-se a promessa". É como
se ele dissesse: "Enfrentem a Lei e vocês estarão condenados porque
se Cristo de nada aproveita, então, é porque vocês decairam da graça
e estão tentando a justificação pela Lei".
Então, o problema dos
iluminados, o terem caído da graça, não é um problema de pecado do
dia a dia. O termo (ANAKAINIZEIN), "restaurar" é uma famosa
palavra rara do N.T, encontrada apenas neste texto de Hb 6:6. Este
verbo é um composto de (ANA),preposição que forma 26
compostos em todo o N.T. com o significado de "outra vez", "de
volta", "para trás". A idéia desse termo único em Hebreus,
primariamente, é de uma re-novação, uma volta ao estado anterior.
Esta compreensão é reforçada pelo termo PALIN, "de novo",
sintaticamente e imediatamente relacionado à "restaurar". Indicaria
isto que o real estado anterior dos iluminados seria um estado de
graça salvadora? Creio que não, pois é possível que o autor aos
hebreus esteja considerando a congregação visível dos santos como um
estado de graça, e que a presença e ausência nesta
congregação represente um tipo de queda e restauração(o que neste
contexto é impossível por causa do tipo de pecado deles). É muito
comum esta visão no Novo Testamento, o que se pode perceber também
com relação ao pensamento dos apóstolos em relação ao problema da
apostasia.
O problema dos nossos pecados
atuais Deus já resolveu, já deu a solução (Rm 8:33-39; I Jo 2:1-2).
O problema dos hebreus aqui é a anulação da fé e da promessa
(Rm.4:14). Isto acontece sempre com os que buscam a Lei para uma
auto-justificação. Neste versículo, Paulo diz que "se os da lei é
que são os herdeiros, anula-se a fé e cancela-se a
promessa". O que significa isso? Ora, salvação é promessa;
somos salvos porque somos herdeiros, porque herdamos e não porque
conquistamos por esforço próprio. É herança! Você não pode
conquistar porque terá de enfrentar a Lei e ela lhe condena. Por
isso, alguém tem de conquistar por você. A justiça de Cristo nos é
dada por intermédio da fé que é um dom de Deus (Rm 5:1; Fp 3:9).
Paulo diz que salvação é promessa de Deus. Se nós vamos estipular as
condições para dar um presente, este não é promessa e sim um salário
(Rm. 4:4-5). Quando você promete algo para alguém, e você estipula
as condições para ele cumprir, este presente deixa de ser presente e
passa a ser salário, porque ele estaria ganhando em decorrência de
ter cumprido o estipulado. Mas promessa é graça, pois Paulo
contrasta promessa com Lei. Ele diz que, se os da lei é que são os
herdeiros, eles não precisam de fé, nem de promessa. Cada um se vira
sozinho para conquistar a sua própria salvação. Era como se o
apóstolo Paulo estivesse dizendo assim: "Você acha que pode
conquistar sua salvação? Então, terá de cumprir a Lei. Vamos retirar
a promessa feita a você e vamos retirar a fé". Porque é a fé que
chama a justiça de Cristo para nós (fé que Deus nos dá), e a
promessa é a garantia da eleição graciosa e incondicional de Deus.
Sem fé não temos justiça de fora, mas somente a nossa própria, e sem
promessa não temos salvação de maneira graciosa da parte de Deus. Na
justificação, convidamos o que está fora, o que não é nosso, a vir
para nós. Nossa justiça é, como disse Lutero, "alienígena". Você
quer ser salvo sem fé e sem promessa? Vire-se sozinho com a Lei (é
isso que Paulo está dizendo aqui); depare-se e enfrente a Lei; tente
salvar-se sozinho. Mas há um detalhe que você não deve esquecer:
cumpra toda a Lei! Porque se errar num ponto apenas, a Lei o
condenará eternamente, porque Deus não se relaciona com pecadores a
não ser na base da justiça de Seu próprio Filho.
O apóstolo Paulo diz que a
salvação é para pecadores. Nunca devemos pensar que estes iluminados
aqui estão caindo (sem perdão) porque pecaram. Não é um problema tão
simples de pecado "diário" a que o escritor aos Hebreus se refere,
mas um problema muito mais sério porque repousa sobre estes
iluminados a ira de Deus e a ausência do perdão.
O apóstolo Paulo diz em Romanos
no cap. 7: 14 -25:
"Porque bem sabemos que a lei
é espiritual; eu, todavia, sou carnal, vendido à escravidão do
pecado. Porque nem mesmo compreendo o meu próprio modo de agir,
pois não faço o que prefiro, e sim o que detesto. Ora, se faço o
que não quero, consinto com a lei, que é boa. Neste caso, quem faz
isto já não sou eu, mas o pecado que habita em mim. Porque eu sei
que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o
querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço
o bem que prefiro, mas o mal que não quero, esse faço. Mas, se eu
faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que
habita em mim. Então, ao querer fazer o bem, encontro a lei de que
o mal reside em mim. Porque, no tocante ao homem interior, tenho
prazer na lei de Deus; mas vejo, nos meus membros, outra lei que,
guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei
do pecado que está nos meus membros. Desventurado homem que sou!
Quem me livrará do corpo desta morte? Graças a Deus por Jesus
Cristo, nosso Senhor. De maneira que eu, de mim mesmo, com a
mente, sou escravo da lei de Deus, mas, segundo a carne, da lei do
pecado."
Aqui há o que os puritanos
chamavam de gemitus sanctorum que é o gemido dos santos, dos
regenerados. Há muitas interpretações em cima deste texto. Alguns
autores dizem que aqui Paulo está tratando do gemido do
não-regenerado. Mas o homem não-regenerado não luta com a Lei de
Deus, pois a Lei não faz parte do seu cotidiano, ele está cego e
morto, não tem tanta consciência da Lei de Deus a ponto de dizer:
"Desventurado homem que sou!". A consciência que ele tem é
uma impressão da Lei original no seu coração e mente, mas mesmo
assim, afetada pelo pecado (Rm 2:13-16). Um não regenerado não diz
isso a não ser que o Espírito o regenere e contraste sua condição de
pecador com a Lei de Deus. Isso se dá na regeneração. Se diz também
que Paulo estaria se referindo ao farisaísmo de sua época, pois eles
eram amantes da Lei. A este argumento respondo que os fariseus eram
observadores da Lei de forma exterior. Quanto ao homem interior eles
não tinham prazer na Lei de Deus, tendo em vista que eram os maiores
transgressores dessa Lei. Jesus afirmou que quanto ao homem interior
eles só tinham podridão, eram os "sepulcros caiados", os maiores
hipócritas daquela época.
Temos salvação mesmo em estado
de pecado porque Jesus disse que Ele veio para os doentes e não para
os bons. Mas o pecado ainda é uma realidade na vida do crente. O
pecado não tem mais nenhum poder acusador e condenatório sobre os
justificados, mas atrapalha a vida espiritual do crente e sua
intimidade com Deus(Sl 32; Sl 51). Tanto é que no dia a dia da nossa
salvação é necessário que haja um advogado, (I Jo 2:1). Que palavras
extraordinárias! Eis a razão de não sermos consumidos por causa dos
nossos pecados atuais!
Filhinhos meus, estas coisas
vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos
Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo; e ele é a
propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos
próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro.
Jesus é o nosso advogado e nossa
propiciação; é a solução de Deus para que o pecado não nos condene,
pois temos a justiça de Cristo. Por isso, toda vez que Deus olha
para nós, mesmo que estejamos em pecado, Ele considera a justiça de
Cristo como a nossa. Aqueles que afirmam que o crente perde a
salvação por causa de um pecado cometido, estão, em outras palavras,
dizendo que não têm um advogado, ou, se o têm, este é muito fraco
porque o apóstolo João está dizendo exatamente isto: "Se
todavia, alguém pecar, temos Advogado". Você já tentou
chegar diante do juiz sem um advogado? A condenação é certa! Mas
esta é a razão de não sermos consumidos em vista dos nossos pecados:
temos um advogado!! E João ainda enfatiza mais: "Ele é a
propiciação pelos nossos pecados...".
O que significa propiciação?
Algumas versões famosas como RSV, NEB, NIV NRSV, traduzem
erroneamente esta palavra por "expiação", mas esse não
é o significado de HILASMOS, "propiciação", nem de
HILASTERION, "propiciatório". Estas palavras , tanto no Velho
Testamento como Novo Testamento significam o afastar a ira de
Deus. Isso se relaciona sempre com o pecador, com a pessoa
que praticou o delito, e não com o delito. Jesus é nossa propiciação
porque quando pecamos, Ele é nosso advogado diante de Deus Pai.
Jesus sempre diz ao Pai: "Este é justificado, não há condenação para
ele". Jesus é o nosso Advogado, nossa propiciação porque, mesmo
sendo salvos, quando pecamos diante de Deus, Cristo diz assim: "Pai,
caia tua ira sobre mim (como já caiu) e não sobre aquele que foi
justificado". Propiciação é afastar a ira de Deus de sobre aquele
que merece a ira (Jo 3:36; Ef 2:3). Por isso nós permanecemos salvos
mesmo pecando atualmente.
Para aqueles que acham que com o
pecado do dia a dia perdem a salvação perguntamos: Quanto tempo
podemos crêr que passamos salvos? Quanto tempo você passa salvo
durante um dia? Cinco minutos? Um minuto? Um segundo? Quem pode
garantir que agora mesmo não está pecando? Pode ser que agora mesmo
você esteja condenado. Na verdade a coisa é muito mais séria porque
a salvação é para pecadores. Seremos glorificados lá, no dia do
juízo, mesmo que para Deus já somos considerados neste estado. Mas
enquanto estivermos aqui, estamos naquele gemitus sanctorum.
Paulo disse: "Desventurado homem que sou. Quem me
livrará do corpo desta morte?". Por que? Porque na ressurreição
o que é mortal será revestido de imortalidade e o que é corrupto
será revestido pela incorruptibilidade (I Co 15:50-58). Por isso que
essa glorificação e essa libertação total do poder do pecado será
somente na eternidade. Mas o pecado não pode nos separar do amor de
Deus que está em Cristo Jesus (Rm 8:33-39). Se o amor de Deus
estivesse em nós, esse amor, do dia para a noite se perderia porque
fazemos coisas terríveis que entristecem ao Seu coração. Se
dependêssemos da nossa integridade para que Deus nos amasse, não
haveria um só dia em que não fôssemos odiados e que,
consequentemente, estivéssemos perdidos. Mas o amor de Deus está em
Cristo Jesus, porque somente Jesus satisfaz à Lei para nossa
santificação e salvação. É algo que não está em nós. Observe as
várias repetições da expressão "em Cristo Jesus"(Rm 8:39; Ef
1:5,6; 2:6,7,10).
Aqueles que dizem que perdem a
salvação com o pecado, terminam se envolvendo em seríssimas
implicações teológicas: 1) Eles não crêem na suficiência de Jesus
como nossa justiça, nossa propiciação e nosso advogado; 2) Esses
também não crêem na perfeição da justiça de Cristo como suficiente
para satisfazer a Lei de Deus em tudo o que ela exige do pecador.
Segundo o ensinamento do Novo Testamento sobre a expiação e
propiciação, se um pecador volta a ser condenado por causa de seus
pecados, isso indicará falhas na obra expiatória de Cristo. O que
nos levaria, consequentemente, a concluir que a obra vicária de
Jesus foi muito fraca para nos salvar da condenação eterna do
pecado. Como compreender a perfeição da obra expiatória de Cristo se
o pecado ainda tem poder condenatório sobre os quais foi aplicada
esta obra? Como entender a qualidade da obra de Cristo se mesmo
depois da nossa expiação e propiciação em Jesus, ainda aissim
podemos ser acusados de pecado condenador? Tudo isto seria possível
se a obra de Cristo fosse defeituosa e não atendesse as exigências
da lei de Deus quanto a nossa salvação eterna.
Qual era o estado desses
iluminados antes da queda? Quando olhamos para as características da
vida daqueles antigos hebreus percebemos aspectos semelhantes da
vida espiritual dos crentes nos dias de hoje. Vejamos:
1.Foram iluminados. Saíram de
uma cegueira e começaram a enxergar.
2.Provaram o dom celestial das
bênçãos oferecidas no evangelho.
3.Foram participantes do
Espírito. O Espírito deu conhecimento, entendimento.
4.Provaram da Palavra. Quando
lhes foi pregado o evangelho naquele dia eles se maravilharam com a
Palavra. Ouviram da vontade de Deus, e até fizeram votos de
observá-la.
5.Provaram dos poderes do mundo
vindouro. Eles tiveram um claro entendimento do juízo de Deus sobre
o mundo, das promessas de Deus, o desvendar do mundo futuro; tiveram
uma clara distinção do juízo, bem como provaram dos milagres da era
apostólica.
O que se tem argumentado
normalmente na exegese deste texto é o seguinte:
-
Que a idéia de iluminação
encontrada em FOTISTHENTAS, "iluminados" não se refere de
fato à iluminação trazida pela verdadeira regeneração, fazendo o
pecador enxergar sua própria perdição e necessidade de um
Salvador, mas apenas a uma chispa da luz do evangelho.
-
Que o verbo grego
GEYSAMENOS, "provaram", significa apenas "provar", indicando
assim que aqueles hebreus apenas tiveram um "gostinho da graça", e
não se fartaram da comida celestial.
-
Que DOREAS, "Dom" é
contrastado com CHARISMATA, "Dom", ou "graça salvadora", e
que significa apenas "dom", como qualquer outra bênção dada por
Deus a todos os pecadores.
-
Que o termo METOCHOS,
sempre indica "participante", "companheiro", mas nunca de fato
quer significar intimidade, ou no caso do Espírito,
"habitação".
Essa exegese de tais palavras e
consequentemente a teologia extraída desta análise não podem ser
sustentadas em todo o Novo Testamento pelas seguintes
razões:
-
O termo FOTISTHENTAS,
pode muito bem indicar a iluminação salvadora, que como revelação,
é trazida à mente e ao coração dos homens sem Cristo para que
entendam a verdade de Deus sobre o pecado e sobre a salvação (Jo
1: 9; Ef 1:18). Ainda mais, o termo HAPAX, sintaticamente
ligado à FOTISTHENTAS aponta para algo que acontece uma só
vez, o que pode ser dito da regeneração.
-
O uso de GEYSAMENOS no
Novo Testamento não indica que ele sempre refere-se à um "provar"
superficial, ou apenas a um "gostinho" daquilo que se prova.
Podemos ver seu uso para um total envolvimento com aquilo que se
prova, que é o caso de Mc 9:1 e Jo 8:52 (provar a morte). Este
termo também pode ser visto como o verbo "comer"(At 10:10). Nestes
dois usos distintos deste termo, não há a idéia simplesmente de
"provar", mas de envolver e digerir.
- DOREAS,(dom), não é
necessariamente um contraste com as verdades salvadoras implícitas
no termo CHARISMATA. Podemos encontrar DOREAS sendo
usado como sinônimo de CHARISMATA em textos como João 4:10
referindo-se a Jesus; Atos 8:20, referindo-se ao Espírito; Romanos
5:15, 17 referindo-se à vida eterna. O autor da epístola poderia
estar usando um destes significados sem problema.
- A palavra grega
METOCHOS também reflete a mesma natureza de abordagem que
estamos fazendo. Dizer que o termo alí refere-se apenas a uma
"participação" do Espírito em vez de uma" habitação" do Espírito,
não é convincente, tendo em vista que este termo também é usado
para descrever nossa participação da vocação celestial no mesmo
autor (Hb 3:1), e participantes de Cristo (Hb 3:14). O que pesa
mais nesse argumento é que as duas ocorrências do termo, que
contrastam com a interpretação sugerida, acontecem exatamente no
mesmo autor, indicando uma unidade em seu pensamento sobre o termo
METOCHOS.
Nosso grande problema com a
exegese deste texto é que ela não ajuda a afirmar que o autor aos
Hebreus estava falando de uma fé temporal, ou de uma
pseudo-regeneração e pseudo-conversão. Calvino refere-se à queda
desses hebreus como "fé temporal", mas ele não se baseia na exegese
do texto, e sim, como estamos fazendo aqui, no estado posterior
deles. Não conseguiremos encontrar pistas para descobrir se eles
eram de fato regenerados ou não estudando o estado
anterior deles, e sim estudando o estado
posterior daqueles hebreus.
Mas, perguntamos: que tão grande
queda foi essa que invalidou esse estado de graça e vetou a
possibilidade e volta ao antigo estado de graça? Que trágica queda
foi essa dos iluminados? A verdade está no versículo 6: "...
caíram, sim, é impossível outra vez renová-los para arrependimento,
visto que, de novo, estão crucificando para si mesmos o Filho de
Deus e expondo-o à ignomínia". Esse pecado é exatamente o
problema que Paulo coloca em Gálatas 5:2-5, como já enunciamos
anteriormente. Eles decaíram da graça porque procuraram a
justificação por outro meio que não Cristo. Para isso não há perdão,
não há como o homem ser salvo. Se a fé for anulada e cancelada a
promessa, o que sobrará para o homem? A LEI! E sabe o que a Lei faz
conosco nesta circunstância? Ela nos condenará friamente e nos
levará ao inferno, pois o que ela exige para a nossa justificação
não podemos cumprir. Estão condenados, diz o apóstolo Paulo. Você
quer ser salvo Pela Lei? Cumpra toda a Lei. E por não podermos,
estamos condenados, decaídos da graça, miseravelmente
perdidos.
Esses Hebreus, diz o autor,
estavam "crucificando para si mesmos o Filho de Deus". O que
isso significa? Que esses "irmãos" estavam praticando obras da Lei,
que era um caminho totalmente oposto ao caminho da graça. Por isso
Paulo diz que os gálatas caíram da graça. Eles voltaram à prática
desta Lei para sua justificação. Eles estavam negando o sacerdócio
de Cristo, negando a nova aliança, toda a obra vicária do Senhor e
voltando ao farisaísmo tão combatido por Jesus e pelo apóstolo
Paulo. O uso da expressão "cair da graça" não quer dizer
necessariamente "perda de um genuíno estado de salvação anterior",
pois, geralmente encontramos essa expressão no Novo Testamento
sempre que é feita referência à descristianização de algum membro da
igreja ou relacionado à apostasia, e geralmente à pessoas que nunca
tiveram salvação. Percebamos que nem Paulo, nem o autor aos Hebreus
estão emitindo alguma forma de juízo revelacional, ou trazendo uma
revelação sobre o estado espiritual daqueles que decaíram da graça.
Não! Não é isto que está em vista aqui. Tanto Paulo quanto o autor
aos Hebreus estão se dirigindo à igreja visível de Cristo, de
maneira exortativa, e emitindo um parecer inspirado sobre a condição
deles a partir de uma visível apostasia da graça. Ora, se alguém
abandona o caminho da graça e abraça o caminho das obras, a
conclusão inevitável é: ele decaiu da graça; voltou para o caminho
das obras, para o caminho da Lei. Nesta condição, quem se
salvará?
Quando os apóstolos chegaram em
Éfeso (Atos 19), eles fizeram uma pergunta àqueles discípulos de
João Batista. Quando lemos esta palavra "discípulos" aplicada a
eles, parece que eram crentes, mas vamos saber se são, de fato,
crentes, quando continuamos a leitura do texto e vemos o apóstolo
perguntando: "Recebestes, porventura, o Espírito Santo quando
crestes?". Então eles responderam: "Pelo contrário, nem
mesmo ouvimos que existe o Espírito Santo". Para Paulo aquilo
era uma anormalidade: "Não receberam quando creram? O que está
havendo?" Paulo pergunta ainda para eles: "Em quem vocês
foram batizados? ". Eles responderam: "No batismo de João
Batista quando estava pregando". Parece que estou ouvindo Paulo
dizer: "Eis aí a causa. Por isso que vocês não conhecem a Jesus".
Porque a expressão "batismo em nome de Jesus", em todo Novo
Testamento, significa conversão, regeneração. Isso porque, durante
muito tempo, na igreja apostólica, batismo era, não apenas um sinal,
mas a própria conversão. Era uma evidência clara da conversão pois
eles perguntavam logo: "Vocês foram batizados em nome de quem?". Se
não fosse em nome de Jesus, eles concluíam logo que não estavam
salvos, pois eles tinham credenciais apostólicas para perguntar e
concluir que o batismo em nome de Jesus representava a
conversão.
Mas, por que a pregação e
batismo de João Batista não salvaram aqueles discípulos? A resposta
é que eles não haviam crido, tanto é que Paulo afirmou que eles
deveriam ter recebido o Espírito quando cressem. Isto era porque
João Batista estava pregando a mensagem messiânica e não a mensagem
evangélica. Depois da vinda de Jesus, nenhuma mensagem messiânica
pode salvar o homem. Bruner diz algo muito importante em seu livro
TEOLOGIA DO ESPÍRITO SANTO, pág 161 "Desde a vinda de Jesus, o
caso de cristãos crerem no Messias e, porém, serem batizados no
batismo de João é naturalmente uma anomalia. E este é o problema por
detrás desta passagem. Somente quando a fé no Senhor Jesus Cristo é
ligada com o batismo nEle é que o cristão, é lógico, recebeu a
iniciação cristã autêntica. O elo que faltava na formação espiritual
dos efésios, portanto, não era o ensino sobre como ser batizado no
Espírito Santo, era a fé e o batismo em Jesus. E quando foram dados
esta fé e este batismo, assim também, gratuitamente, o Espírito
também foi dado." Por isso, ninguém da velha dispensação que
entrou na nova pode deixar de ser batizado em nome de Jesus. Mas o
importante é que a mensagem messiânica não leva o homem, na era do
Messias que chegou e está presente, à salvação. Por isso, eles
estavam perdidos, sem salvação. Ora, se aquela mensagem messiânica
não salvou àqueles, o que dizer daqueles hebreus que voltaram aos
sacrifícios do Judaísmo? Estão perdidos tentando a justificação pela
Lei. Para eles não existe nenhuma "obra" da Nova Aliança - Cristo -
e sim somente a Lei, suas próprias obras e a aventura de buscar a
justificação por ela. Por isso que eles decaíram da graça. Por isso
que eles ao abandonarem o cristianismo e ao se voltarem para o
judaísmo ficaram sacrificando `a Jesus. O autor perguntava: "Será
que vocês vão novamente para um sacrifício que já foi consumado? Se
é assim, Cristo de nada vale para vocês". A pregação messiânica não
serve mais, a pregação deve ser evangélica - as Boas Novas. O que
são as Boas Novas? Cristo, Deus Emanuel, Deus presente.
Mas, não estou dizendo com isso,
que os crentes fiéis do Velho Testamento foram salvos cumprindo a
Lei. Não pensem nunca nisso. O judaísmo e os fariseus de todas as
épocas, como o homem natural, pensam que a salvação é uma conquista
dele mesmo. O homem natural diz em relação à salvação: "Devo
fazer". O homem regenerado pelo evangelho diz: "Está
feito". No VT os crentes eram salvos pela fé em Deus. A prova
disto é a exigência do sangue no relacionamento entre Deus e o
pecador. Esta exigência já era prova de que o caminho a ser trilhado
pelo pecador deve ser sempre o da graça, e nunca o das obras. Por
isso o sangue já pregava o Evangelho da graça. Mas não era fé no
sangue do animal, como queriam os fariseus, mas fé em Deus. O sangue
deveria dirigir os olhares dos israelitas para o caminho da graça,
para a salvação que era promessa. Mas muitos entendiam erroneamente
que era o próprio sacrifício que expiava. Paulo diz destes que eles
decaíram da graça porque só conseguiam enxergar o caminho das
obras.
Quem são estes do judaísmo que
tentam justificação pela Lei? São exatamente aqueles que entenderam
erroneamente o caminho da salvação. O próprio Deus havia
providenciado sacrifícios que pregariam as Boas Novas, dizendo que o
pecado seria expiado e a ira de Deus seria aplacada, mas através do
sacrifício de Cristo que viria, mas que já era dado eficazmente como
certo - as Boas Novas, Jesus, Deus Emanuel, Deus conosco. Esta é a
pregação evangélica. Paulo falou sobre isso: "Bem que eu poderia
confiar na carne (como muitos confiam). Se qualquer outro
pensa que pode confiar na carne, eu ainda mais; circuncidado
ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu
de hebreus; quanto à lei, fariseu, quanto ao zelo, perseguidor da
Igreja; quanto à justiça que há na lei, irrepreensível
(Fl.3:4-6). Esta é a expressão máxima: "quanto à
justiça que há na lei...". Este é o pensamento farisaico
quanto à salvação. Os homens queriam conquistar a sua salvação
cumprindo a Lei por si mesmos. Os fariseus pensavam assim.
Paulo era um exemplo disso, pois ele diz que quanto a isso ele era
"irrepreensível".
O texto diz que, se eles
abandonaram o verdadeiro caminho para a justificação que é Cristo,
se estes iluminados saíram deste caminho e foram para o caminho do
judaísmo para buscar esta justificação pelas obras da Lei, então,
podemos concluir que não eram justificados. Se estes iluminados
foram buscar a justificação através da Lei, concluímos então, que
eles não haviam sido verdadeiramente justificados. Anularam a fé,
cancelaram a promessa e tornaram Cristo algo inútil. Deus não perdoa
este pecado. Deus não perdoa esta anulação da obra redentora. Este é
o pecado contra o Espírito. Só os não regenerados são passíveis de
um pecado desta gravidade. Isto significa que nos tais nunca houve a
regeneração, a obra da regeneração do Espírito, e a prova disso é
que seu estado de suposta graça não foi suficiente para mantê-los no
caminho da graça - abandonaram a Cristo. Mas que regeneração é esta
que os faz abandonar as Boas Novas? Eles sempre estiveram em Adão e
não em Cristo (I Co 15:22). Em Adão todos morrem e em Cristo todos
são vivificados. Se o estado destes iluminados é estado de morte e
sobre eles repousa a ira de Deus, não há propiciação para eles.
Estão ainda em Adão naturalmente condenados. Não há perdão para
estes iluminados porque eles resolveram caminhar nesta trilha da
justiça pelas obras da Lei, pois é sempre esse o caminho da religião
natural da humanidade.
É bem verdade que a exegese
daqueles termos importantes não apontam para uma falsa fé naqueles
hebreus, mas a falsa conversão daqueles "crentes temporários" pode
ser facilmente constatada pelo autor da epístola por contemplá-los
num caminho de obras. Nada denuncia mais a nossa condenação do
que tentarmos nos salvar a nós mesmos.
Como entender a iluminação
destes que caíram da graça? A pergunta seria: Pode, então, um não
eleito, um não salvo, um não regenerado, participar, de alguma
forma, da graça de Deus? Será que o homem natural, pode, em algum
sentido, ser iluminado? Será que aqueles que não foram eleitos, que
não foram contemplados para a obra da justificação sobre suas vidas,
podem participar, em algum sentido, da graça de Deus? Em Marcos
4:14-19 temos esta resposta. O versículo 16 diz que estes
"ouvindo a palavra, logo a recebem com alegria".
Percebamos o envolvimento da fé temporal com a Palavra de Deus! Mas
como "não têm raiz em si mesmos, sendo, antes, de pouca duração,
e lhe chegando a angústia ou a perseguição por causa da Palavra,
logo se escandalizam. Os outros, os semeados entre espinhos, são os
que ouvem a palavra, mas os cuidados do mundo, a fascinação da
riqueza e as demais ambições, concorrendo, sufocam a Palavra,
ficando ela infrutífera. Os que foram semeados em boa terra são
aqueles que ouvem a palavra e a recebem, frutificando a trinta, a
sessenta e a cem, por um". Por que a palavra frutificou? Porque
a semente caiu em boa terra, criou raiz e essa raiz foi aprofundada.
O v. 17 diz que os que se escandalizam ficam assim porque "não
têm raiz em si mesmos". Por isso não duram, são de pouca
duração. Nestes não há regeneração. A obra do Espírito na
regeneração tem a dimensão de uma raiz que é cravada no interior do
homem, num coração preparado por Deus (Ez 36:24-27). Sem esta raiz
profunda não há regeneração, nem fé, nem santificação, nem
obediência(Ef 1:4,5,13,14). Observem que esses foram os elementos
indiscutíveis pelos quais, tanto Paulo quanto o autor aos Hebreus
procuraram naqueles crentes, e que naquele momento estavam ausentes
na vida daqueles irmãos. Então ele conclui: "Da graça decaístes".
Por isso dura tão pouco. Mas há um envolvimento com a Palavra. Há
uma duração, mesmo que pequena, há uma caminhada, uma iluminação, há
um partilhar desta graça, mesmo sem raiz. Foram iluminados, mas não
receberam os olhos da verdadeira visão espiritual, porque não tinham
raiz. Entenderam certos princípios da vontade de Deus e até mesmo
aguçaram suas consciências com a verdade do evangelho. Apenas se
afastaram temporariamente das trevas do paganismo, do judaísmo, do
caminho das obras da Lei. Os verdadeiros filhos de Deus têm a luz da
vida (Jo 8:12), enquanto que os perdidos têm apenas pequenas
faíscas, centelhas de luz dessa graça. Os iluminados de Hebreus 6
provaram o dom celestial mas não digeriram verdadeiramente o corpo e
sangue de Cristo que está em João 6:53. Não comeram a carne, nem
beberam o sangue de Cristo.
Foram participantes das
operações do Espírito mas nunca chegaram a ser batizados com o
Espírito tornando-se assim habitação deste Espírito. Provaram da boa
Palavra e até se alegraram, mas faltou-lhes raiz. Provaram a
Palavra, viram e maravilharam-se com as coisas que estão nesta
Palavra. Até guiaram-se pelos seus preceitos de vida e dirigiram
suas famílias por eles, mas não durou muito pois não havia raiz, por
isso abandonaram esta Palavra.
Em Romanos capítulo 8:9 Paulo
diz que, se o Espírito de Deus não está no crente este tal não é
dEle. Eles não poderiam ter o Espírito de Cristo porque seria uma
contradição. Como poderiam eles terem o Espírito de Cristo e ainda
assim não estarem em Cristo? Logo, eles não tinham essa habitação.
Apenas provaram das manifestações do Espírito mas não da habitação
do Espírito. Estes estão condenados, pois não têm o Espírito, mas
sim o pendor da carne. Portanto, esse "provar do Espírito", esse ser
"participante do Espírito" que mais tarde leva o crente à salvação
por obras não corresponde à teologia paulina da habitação do
Espírito, pois o resultado da habitação do Espírito é contrastante
com a postura daqueles hebreus apóstatas da graça (Rm
8:4-27).
Provaram os poderes do mundo
vindouro mas contentaram-se apenas com as centelhas da ira de Deus.
Entenderam que haverá um grande juízo sobre o mundo mas se
contentaram com o que Paulo diz em Romanos 2:14-15 - "Quando,
pois, os gentios, que não têm lei, procedem, por natureza, de
conformidade com a lei, não tendo lei, servem eles de lei para si
mesmos. Estes mostram a norma da lei gravada no seu coração,
testemunhando-lhes também a consciência e os seus pensamentos,
mutuamente acusando-se ou defendendo-se". Esse era o tipo de
lei, de poder do mundo vindouro com o qual esses iluminados que
caíram se contentaram. Porque os não crentes também têm uma lei, só
que não é aquela Lei que milita contra a carne, mas é uma lei que
apenas provoca o remorso no coração do assassino. Que leva depressão
ao espírito daquele que pratica o pecado, mas nunca o leva de volta
à vontade de Deus. Nunca ele dirá: "no tocante ao homem interior,
tenho prazer na Lei de Deus" (Rm 7:22). Mas, ao contrário, se
contentam apenas com estas pequenas faíscas da luz de Deus, do Seu
grande julgamento. Se contentaram apenas com esta concepção do
julgamento de Deus. Uma outra concepção sobre os poderes do mundo
vindouro é fundada no significado de DINAMEIS MELLONTOS
AIÔNOS, "os poderes do mundo vindouro". O termo DYMANEIS
pode ser entendido por milagres ou prodígios, indicando que
aqueles hebreus poderiam ter provado dos poderes do reino dos céus,
o que poderia ser exemplificado pela participação deles em uma época
como a era apostólica, a qual foi confirmada com muitos poderes
miraculosos.
Provaram do dom celestial.
Certamente que eles até se esforçaram em conhecer melhor o Dom de
Deus, Jesus. Até louvaram-no, fizeram-lhe orações e se alegraram com
ele. Talvez tenham buscado socorro e amparo em Jesus. Quem sabe se
eles, como muitos nos nossos dias, até foram curados, seus problemas
solucionados, suas lágrimas estancadas nessa dimensão da presença de
Cristo. Muitos deles até mesmo evangelizaram outros judeus e
pregaram Jesus para eles. No entanto, abandonaram tudo isso, negaram
tudo o que fizeram e voltaram para um caminho de obras. Então, o
autor aos Hebreus diz: "Quão horrenda coisa é essa que vocês
fizeram! Não há restauração para vocês!"
Tudo isso é a operação do
Espírito na vida dos não regenerados como fruto da graça de Deus. E
ainda assim, quando esses não regenerados caem deste estado, eles
pecam contra o Espírito.
CONCLUSÃO
|
O Autor aos Hebreus não
está querendo ensinar com aquelas qualidades dos iluminados
que elas são superficiais. A exegese do texto não aponta para
este caminho. As qualidades que estão ali (iluminação, dom
celestial, provar a Palavra e os Poderes celestiais, ser
participante do Espírito Santo) são as qualidades que devem
ser encontradas em todos os que são verdadeiramente
regenerados.
|
|
Mesmo não tendo aqueles
hebreus, de maneira profunda e eficaz, aquelas qualidades, a
prova disto é que vieram a negá-las mais tarde, o autor da
epístola estava dizendo que era impossível, depois da queda,
para eles, o restaurar para o arrependimento. Neste ponto, o
verbo ANAKAINIZEIN "restaurar ou renovar" está no
infinitivo ativo, não trazendo nenhuma idéia passiva de "serem
renovados ou restaurados por Deus". Tanto
ADYNATON("impossível"), quanto ANAKAINIZEIN
("renovar") referem-se aos iluminados, tirando-lhes
qualquer possibilidade deles mesmos chegarem à graça salvadora
de Deus. Então a melhor tradução do texto seria: "É
impossível a estes iluminados, por suas próprias obras,
voltarem ao caminho da graça."
|
|
O autor aos Hebreus
olhando para a igreja de Cristo, contemplava a assembléia dos
que foram iluminados, provaram o dom celestial, a Palavra
de Deus e os poderes do Reino e eram participantes do
Espírito, e entre estes estavam aqueles irmãos que mais
tarde abandonaram esta assembléia dos santos. Para o autor da
epístola, estes irmãos participaram de forma visível das
bênçãos que cercam os eleitos de Deus. A prova deste meu
argumento é o fato de não conter no texto nenhuma forma de
avaliação revelacional ou profética sobre o interior de cada
um daqueles hebreus desviados do evangelho de Cristo. O
capítulo 6 inicia exatamente ao estilo de uma exortação (1-3),
encaixa uma advertência em forma de lembrança, e continua com
a exortação (9-12). O que quero dizer é que sua avaliação dos
iluminados é do ponto de vista da assembléia visível dos
santos. Se o julgamento que o autor faz sobre os iluminados é
exortativo e em relação à assembléia dos santos, a qual ele
podia contemplar, então, com o termo "queda", não devemos
entender necessária e teologicamente "cair do estado de
salvação eterna", nem a perda da justificação, pois eles nunca
tiveram isso verdadeiramente. A idéia da queda corresponde a
um abandono não somente da assembléia dos santos, mas também
do caminho da fé e da graça salvadoras. Isto significa
que o mero fato do autor dizer que caíram, quer dizer que eles
deixaram a congregação dos santos e voltaram para o judaísmo.
O participar das bênçãos dos regenerados quer dizer que
tiveram um proveito de certa forma da atmosfera da graça. E o
não serem restaurados para o arrependimento quer dizer que se
isso depender das obras deles e do caminho que tomaram, jamais
chegarão à graça salvadora e consequentemente nunca haverá
perdão para eles.
|
|
A queda dos iluminados de
Hebreus 6 refere-se também a uma total renúncia de Deus, da
Sua Palavra, do seu dom e do Seu Espírito. Esses iluminados
alienaram-se do Evangelho de Cristo e da graça salvadora, e
foram totalmente excluídos do perdão. Este tipo de pecado
somente pode ser cometido pelos não eleitos, pois àqueles que
violam a segunda tábua da Lei de Deus é-lhes dado o perdão,
mas àqueles que caem da graça são deixados por Deus permanecer
neste estado. |
Qual a lição prática que estes
iluminados que caíram trazem para nós?
1. Nós não podemos nos contentar
apenas com esses sinais dessa iluminação para pensarmos em
regeneração. Nunca confundamos esses sinais dos iluminados com a
regeneração. Nem tudo que for chamado evangélico, nem toda
movimentação no meio evangélico é o Evangelho. A prova está aqui.
Iluminados participaram da graça, mas nunca foram salvos. Somos
tendenciosos a considerar salvos, crentes, e evangélicos, aqueles
que confessam uma iluminação deste tipo. Mas a Palavra de Deus
ensina a perseverança na vontade de Deus e a suficiência de Cristo
como evidências de nossa regeneração ( Mt 24:13; Jo 3:15,36;
5:24-25; 8:31; 10:26-29; 15:1-6; 15:10; I Jo 2:3-6,19,24,28,29;
3:7-10,24; 4:7,8,13,15,16; 5:4,5,18,19). O evangelho somente
é verdadeiro quando Jesus é suficiente para a nossa salvação. Porém
vemos tanto "marketing", tanta propaganda de um evangelho em que só
Jesus não é suficiente.
2. O autor aos Hebreus se dirige
a todos os crentes. Esta palavra não é dirigida apenas aos que
caíram. Isso não está sendo escrito somente aos judaizantes da época
do apóstolo; não se reduz apenas a uma época. Sua palavra é
principalmente para os crentes fiéis que permanecem na congregação
dos santos como um alerta para que ninguém venha a cair no mesmo
delito da apostasia da graça. Decair da graça regeneradora só será
possível se a pessoa nunca tiver sido alcançada por esta graça
salvadora. Mas o "cair da graça" aqui é o participar visivelmente da
graça e abandoná-la. É negar a graça, é anular a fé e cancelar a
promessa. Sobre aqueles que decaem da graça o juízo é eterno. Mas
sobre aqueles que decaem do estado de uma boa vida espiritual com
Deus, Ele também tem juízo para eles. Ele também está dizendo que
devemos nos sensibilizar de que os nossos pecados, a falta de
sensibilidade para com o pecado, o cultivar o pecado na nossa vida,
o achar que um pecado esporádico não faz mal a ninguém; o pensar que
a mentira é menos pecado do que o adultério; e que a falta de
compromisso, a insinceridade, a irresponsabilidade, a negligência,
tudo isso são pecados menores do que o roubo ou assassinato é uma
falta gravíssima nossa para com Deus.
Muitos pregam que perdem a
salvação por caírem em adultério, ou num roubo ou qualquer pecado
crasso, que chame atenção. Mas estão esquecidos de que João disse em
Apocalipse que vão ficar de fora também os mentirosos(Ap 21:27;
22:15). Para os que têm tal concepção da salvação, um irmão
mentiroso quase sempre nunca é visto como tão perdido quanto um
"adúltero". Mas a Palavra de Deus diz que esse vai ficar de fora
tanto quanto aquele que foi feiticeiro, que estava sob o paganismo
ou judaísmo, que anularam a graça. Muitos mentirosos pensam que
estão salvos, mas está escrito no livro: "MENTIROSO". Os que
defendem a perda da salvação sempre estão pensando nos pecados
graves e escandalosos, ao estilo da concepção do "pecado mortal" da
Igreja Católica Romana. Nunca lhes vem à mente que se a estabilidade
da salvação dependesse de nossa integridade ela seria perdida ao
menor pecado, pois a Lei de Deus não admite qualquer forma de
pecado, (Gl 3:22).
Com relação à vida espiritual da
igreja o autor está dizendo: "Irmãos, fiquem em guarda contra a
possibilidade de um sono em que um "pecadinho" se torne um pecado de
estimação e vai vagarosa e sutilmente rastejando em vossas almas até
tomar conta do coração e da mente. Tomem cuidado com este pecado que
vai encontrando razões sociológicas, psicológicas, antropológicas e
lógicas para um habitat em suas vidas, e quando vocês menos esperam
estão na mais profunda letargia espiritual, distante da abundância
da graça". Sobre estes Deus pesará a Sua mão. Estamos dizendo isso
para que o povo de Deus se consagre cada dia mais.
* Esta exposição é baseada na
obra puritana "A COMMENTARY ON THE HOLY BIBLE" de Matthew Poole,
téologo puritano genebrino do século XVII.
BIBLIOGRAFIA
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MATTHEW POOLE, A COMMENTARY
ON THE HOLY BIBLE, Banner of Truth
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GLEASON ARCHER,
ENCICLOPEDIA OF BIBLE DIFICULTIES, Zondervan
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MICHAEL HORTON, MODERN
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THE ANALYTICAL GREEK
LEXICON
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THE GREEK NEW TESTAMENT,
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FREDERICK DALE BRUNER,
TEOLOGIA DO ESPÍRITO SANTO, Vida Nova
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FRITZ RIENECKER, CHAVE
LINGUÍSTICA DO NOVO TESTAMENTO GREGO, Vida Nova
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W. D. CHAMBERLAIN,
GRAMÁTICA EXEGÉTICA DO GREGO NEO-TESTAMENTÁRIO, Cep
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GINGRICH, LÉXICO DO NOVO
TESTAMENTO GREGO/PORTUGUÊS, Vida Nova
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BARBARA FRIBERG, O NOVO
TESTAMENTO GREGO ANALÍTICO, Vida Nova
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MAURICE ROBINSON, THE NEW
TESTAMENT IN THE ORIGINAL GREEK ACCORDING TO THE
BYZANTINE/MAJORITY TEXTFORM
-
BIBLE WINDOWS SOFTWARE VERSION
4.5, SILVER SOFTWARE
- THE MASTER CHRISTIAN LIBRARY,
SAGE SOFTWARE
fonte: www.ipb.org.br

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